Europa fora do coração euroasiático
Durante mais de um século, a Eurásia ocupou um lugar central no pensamento geopolítico, primeiro como projeção teórica do poder global e, depois como realidade material em transformação. Desde que Halford Mackinder identificou o Heartland como núcleo estratégico continental, esta leitura foi complementada por Nicholas Spykman, que deslocou o foco para o Rimland, as franjas costeiras onde se concentram populações, comércio e poder marítimo. Tornou-se, assim, evidente, que o controlo da Eurásia não dependeria apenas do seu interior, mas sobretudo da articulação entre centro e periferia. Décadas mais tarde, figuras como Yevgeni Primakov reinterpretaram este espaço enquanto alicerce de uma ordem multipolar, concebendo a integração eurasiática como alternativa à hegemonia unipolar.
Hoje, estas leituras convergem numa realidade concreta: a Eurásia organiza-se através de redes de energia, infraestruturas e corredores logísticos que definem novas formas de poder. Neste contexto, a posição europeia revela uma tensão entre a sua geografia e a dinâmica estratégica em curso. Situada no extremo ocidental da Eurásia, o continente mantém-se relevante nos fluxos energéticos e comerciais, mas a lógica que a estrutura escapa cada vez mais ao seu controlo. O poder contemporâneo reside na capacidade de planear, financiar e operar redes de conectividade.
Os Estados Unidos compreenderam bem esta geoeconomia. A leitura inspirada em Spykman traduziu-se numa estratégia de longo prazo orientada para o controlo das margens da Eurásia, com especial incidência na Ásia, palco principal das dinâmicas de crescimento, produção e conectividade. A deslocação progressiva do foco estratégico americano para o Indo-Pacífico reflete essa perceção de que o centro de gravidade do sistema internacional se encontra na articulação entre o litoral asiático, as rotas marítimas e os corredores terrestres.
Neste enquadramento, a Trump Route for International Peace and Prosperity, um corredor que liga o Cáucaso, para além de outros projetos na região que conectam a Índia ao Médio Oriente e à Europa, permite que Washington assegure cadeias de circulação que integram aliados e ofereçam alternativas às redes em consolidação noutras partes da Eurásia. A Europa surge nestes projetos como ponto de chegada, inserida numa arquitetura concebida fora do seu âmago político.
A guerra na Ucrânia acelerou uma reconfiguração mais ampla, reorganizando as relações energéticas e comerciais e abrindo espaço a novas configurações logísticas, ainda assentes em relações de dependência. Paralelamente, o conflito no Irão introduz uma dimensão adicional que poderá reordenar profundamente o equilíbrio regional. A centralidade geográfica iraniana entre o Golfo Pérsico, o Cáucaso, a Ásia Central e o Sul da Ásia, confere-lhe um papel determinante na articulação de corredores estratégicos. Qualquer transformação neste espaço repercute-se diretamente nas rotas energéticas e comerciais que atravessam a Eurásia, influenciando a organização dos fluxos entre Oriente e Ocidente.
O mapa atual dos corredores ilustra esta transformação com clareza. O eixo que liga o Cáspio ao Mediterrâneo, atravessando Azerbaijão, Geórgia e Turquia, demonstra como a energia circula até à Europa através de arquiteturas que envolvem múltiplos centros de decisão. A Turquia afirma-se como operador estratégico destes fluxos, enquanto outros eixos, como o corredor Norte-Sul (Rússia, Irão e Índia) ou as ligações emergentes entre Ásia Central e Médio Oriente, consolidam um sistema de conectividade que estrutura a Eurásia de forma integrada.
Neste panorama, até territórios como a Gronelândia ganham uma nova relevância, integrando-se numa lógica de rotas e recursos associada à abertura do Ártico e à crescente importância das ligações entre o Atlântico Norte e o espaço eurasiático.
Embora presente, a Europa atua agora como o reflexo de forças que a transcendem. À sombra do conflito iraniano e do silêncio no Estreito de Ormuz, emerge finalmente a nova face da energia. É um duelo entre dois tempos: a rapidez nervosa do petróleo, ancorada em fluxos precários, e a marcha firme da eletrificação, assente em infraestrutura e autonomia.
Tempos interessantes avizinham-se e, tal como a expressão “xeque-mate”, de origem persa, anuncia que o rei já não se pode mover, também este momento revela um ponto em que as opções se limitam e o tabuleiro está fixo. A partir daqui, já não se trata de quem avança mais depressa, mas de quem ocupa as posições que moldarão o jogo que se segue.
