O modernsmo e o barroco na disputa eleitoral de São Paulo e Bahia
Tem certas coisas na política brasileira que merecem uma leitura meio antropológica, digamos, pela força da cultura local. É o caso do quadro eleitoral em São Paulo e na Bahia, quando analisado à luz de duas matrizes profundas do país: o modernismo de Mário de Andrade e o barroco satírico de Gregório de Matos. Mais do que referências literárias, ambos expressam formas de perceber o poder, a sociedade e suas contradições.
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A obra “Pauliceia Desvairada”, publicada em 1922 por Mario de Andrade, é um marco fundador do modernismo brasileiro. Promoveu uma ruptura estética e cultural com o passado, que traduzia em São Paulo a vertiginosa transformação, industrial, cosmopolita e socialmente fragmentada daquele estado, onde o Convênio de Taubaté (1906) financiou a acelerada modernização com recursos do café, enquanto em outros estados o patrimonialismo está diretamente associado à decadência econômica, sobretudo após a crise do café de 1929.
Com versos livres, Mario de Andrade captura um mosaico de tensões, ambições e identidades em disputa: “As ruas se cruzam num delírio de aço e de nervos,/ A cidade cresce como um organismo febril,/ E o homem corre, fragmento perdido no tumulto”. Essa São Paulo “desvairada” – caótica, dinâmica e contraditória – é a mesma que se revela no atual cenário eleitoral, no........
