Ó abram alas
“Abram alas” é uma expressão que atravessa o carnaval como um estandarte sonoro. Tornou-se célebre em 1899, quando Chiquinha Gonzaga compôs a marcha “Ó abre alas”, considerada a primeira marcha brasileira. O pedido era literal: que se abrisse espaço para o cordão passar. Mas como toda boa frase brasileira, ganhou vida própria. “Abram alas” virou ordem festiva, licença poética, anúncio de que algo — ou alguém — vem aí e exige passagem. Chiquinha quebrou paradigmas para si mesma e para todas as mulheres.
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Convém notar, com alguma ironia histórica, que nem sempre as alas se abriram para todos com a mesma generosidade.
Lilia Schwarcz (a quem sou eternamente grato por prefaciar o meu livro), conta com a serenidade de quem olha o Brasil pelo retrovisor da história — que o nosso carnaval não nasceu propriamente aqui, nem nasceu propriamente santo. Muito antes do entrudo português respingar farinha nas ruas coloniais, já havia, na Europa, festas pagãs em que se celebrava a fartura, a colheita, o corpo e seus apetites. Eram rituais de excesso, quase sempre anteriores à primavera, quando o frio começava a ceder e os homens, agradecidos, exageravam.
A Igreja Católica, sábia como toda instituição milenar, fez o que costuma fazer com aquilo que não consegue eliminar: incorporou. O período de festa passou a anteceder a Quaresma — os 40 dias de recolhimento, jejum e penitência que preparam a Páscoa. Antes da abstinência, a abundância. Antes do silêncio, o barulho. A própria palavra “carnaval” traz no........
