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Opinião | Afinal, Epstein trabalhava para o Mossad?

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06.02.2026

Desde que meu último artigo – “Afinal, Epstein era mesmo um espião?” – foi publicado, recebi muitos questionamentos nas redes sociais sobre a afirmação de que Jeffrey Epstein – o criminoso em série americano –, colaborou com a inteligência russa. Mais do que isso: parte desses questionamentos vieram acompanhados da certeza de que, longe de trabalhar com os russos, Epstein – de família judia – trabalhava para a inteligência de Israel.

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A resposta para essa provocação não é binária. Mas para compreendê-la será preciso, primeiro, retornar a um dos capítulos definitivos do último século: a desintegração da Cortina de Ferro.

Ao longo do século 20, serviços de inteligência foram usados repetidamente como mecanismos de projeção de poder. Mas não é exagero dizer que o colapso da União Soviética produziu um choque na estrutura da inteligência mundial.

No Natal de 1991, de uma hora para outra, um dos maiores aparatos de segurança e espionagem do planeta perdeu o Estado que fornecia propósito – o que fez com que milhares de homens e mulheres treinados em inteligência se vissem diante de um mundo novo.

O capital humano da espionagem soviética não desapareceu com a Cortina de Ferro – ele se dispersou. O monopólio se rompeu, e o que antes era patrimônio estatal passou a circular, de forma fragmentada, por diferentes mercados.

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O tcheco Robert Maxwell parece ter vivido na encruzilhada dessa história. Por anos, o pai de Ghislaine Maxwell, barão da mídia no Reino Unido, foi acusado de trabalhar para pelo menos três organizações de inteligência – o Mossad israelense, o MI6 britânico e o KGB soviético.

Muitas das histórias envolvendo Maxwell são lendas urbanas. Mas o próprio chefe da inteligência estrangeira da União Soviética, Leonid Shebarshin, relatou, após o colapso do regime, que o pai de Ghislaine era um colaborador de Moscou:

“Maxwell era uma pessoa especial; ele era recebido tal como era. Nossa aliança era ‘de ouro’ – uma relação útil e eficiente”, disse. “Um estrangeiro pode ser útil para nós como alguém com acesso a certas informações, que as compartilharia conosco, de bom grado ou não.”

Há bons indícios para sustentar que Jeffrey Epstein atuava num universo muito parecido ao do “sogro”: não necessariamente como um funcionário clássico de um serviço de inteligência, mas como um intermediário – alguém com acesso e capacidade de coletar informações e conectar interesses.

O que os e-mails dele indicam é que ele se enxergava como um tipo específico de corretor de informação geopolítica. Jesse Kornbluth, seu jornalista e amigo, vai além – diz que quando os dois se conheceram, Epstein se apresentou como um “caçador de recompensas”:

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“Ele dizia que não apenas administrava o dinheiro de clientes com fortunas colossais, mas que também era um caçador de recompensas de alto nível. Às vezes, trabalhava para governos para recuperar dinheiro roubado por ditadores africanos. Outras vezes, esses ditadores o contratavam para ajudá-los a esconder o dinheiro roubado.”

Em algum momento, como o sogro, Epstein acrescentou à sua rede de influência personagens israelenses – mesmo tendo revelado, num email enviado em 2017, que não gostava de Israel.

Epstein tinha, por exemplo, um canal direto com Ehud Barak, ex-primeiro-ministro de Israel. Segundo as suas agendas, o criminoso americano planejou pelo menos 30 reuniões com Barak entre 2013 e 2017.

Barak admitiu ao Wall Street Journal que foi apresentado a ele em 2003 por Shimon Peres, outro ex-primeiro-ministro de Israel, e que costumava visitá-lo quando viajava a Nova York.

Num email, Epstein chegou a coordenar com Barak uma ida dele à Rússia para participar do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, em junho de 2013. Jeffrey encoraja o ex-primeiro-ministro israelense a tratar a viagem como uma oportunidade para arrancar um encontro reservado com Putin – e escreve a Barak que........

© Estadão