Notícia | ‘Workismo’: quando trabalhar demais deixa de ser ambição e vira dependência
Você conhece aquele executivo que responde e-mails às 23h, marca reuniões no sábado e usa “estou atolado” como distintivo de honra. Quando perguntam como ele está, a resposta automática é sempre a mesma: “correndo”. Parece ambição. Parece comprometimento. Parece sucesso.
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Mas existe uma grande diferença entre alguém que trabalha muito porque está construindo algo importante e alguém que trabalha muito porque não sabe mais quem é sem o trabalho. A primeira pessoa tem uma carreira. A segunda tem uma dependência.
Eu conheço bem esse executivo. Entrevistei milhares deles ao longo de quase duas décadas recrutando líderes. E, se for honesto, já fui esse executivo em vários momentos da minha própria carreira.
Workismo não é simplesmente “trabalhar muito”: é transformar o trabalho no principal eixo de identidade, valor pessoal e pertencimento social. A diferença pode parecer sutil, mas é decisiva. A ambição diz “eu faço algo importante”. O workismo diz “eu sou aquilo que faço”.
O problema não começa quando a agenda fica cheia, mas quando qualquer ameaça ao trabalho vira uma ameaça existencial. Uma crítica, uma demissão, um projeto que não decola: tudo vira colapso interno, porque não há vida fora para amortecer o impacto.
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Pesquisas indicam que cerca de 15% dos trabalhadores apresentam padrões de workismo, mas o fenômeno permanece largamente invisível nas organizações, pois é confundido com engajamento positivo e premiado como comprometimento exemplar.
O problema real não está nas horas trabalhadas, e sim no que acontece com a estrutura psicológica da pessoa quando o trabalho se torna o único pilar de sustentação da identidade. Está no que se perde no processo.
O trabalho fornece mais do que salário: fornece estrutura temporal, status social, propósito, pertencimento. Quando esses elementos se concentram exclusivamente no eixo profissional, o indivíduo fica vulnerável de forma desproporcional. A queda, quando vem, não é só profissional. É existencial.
É tentador reduzir workismo a burnout. Mas burnout é a ponta do iceberg, o momento dramático em que o sistema finalmente entra em colapso. O custo real do workismo aparece muito antes e permanece muito depois. Enquanto todo mundo fala de exaustão física e esgotamento emocional, os danos estruturais que precedem o burnout passam despercebidos: empobrecimento da vida social, onde relações passam a ser instrumentais e pessoas viram networking, não vínculo; atrofia criativa, porque criatividade exige ócio, diversidade de estímulos e fricção com o mundo........
