Opinião | O brincar na escola pública: inspiração em meio ao caos
Brincar não é ponto de partida, tampouco lugar de chegada. Brincar é tudo o que acontece no meio do caminho, na fluidez do sentir. Instala-se no tempo do afeto, do encantamento e da curiosidade. Tempo e espaço suspensos para experimentar o que é da presença, do aqui e agora. É sobre a oportunidade de viver plenamente o momento, uma investigação única, singular, simples e ao mesmo tempo complexa. Brincar é um laboratório da existência, uma prática de escuta e de relação com o mundo, em sintonia com o que é essencial a cada um. Numa sociedade marcada pela pressa, pela eficiência e pela superficialidade das relações, essa pausa para o encontro com o estado de brincar torna-se não apenas urgente, mas vital. Trata-se de um direito das crianças. E uma necessidade dos adultos.
Vivemos no tempo da internet, essa espécie de novo consciente coletivo, uma rede onipresente que conecta, mas também dilui as fronteiras entre o público e o privado, automatiza o pensamento e nos conduz a uma lógica de respostas prontas. A velocidade com que as informações circulam impacta diretamente a nossa capacidade de refletir, imaginar e criar. Anestesiados por nossos smartphones sempre ao alcance, a apatia cresce à medida que nos afastamos da nossa potência criativa.
Nesse cenário, a escola segue resistindo todos os dias. Educadores, por vezes exaustos e sobrecarregados, sabem teoricamente da importância do brincar para o desenvolvimento integral das crianças, mas na prática sentem que é uma atividade secundária, muitas vezes encarada como perda de tempo. A pressão por resultados mensuráveis, o excesso de burocracia e a cultura do controle inibem a confiança no tempo da infância. É como se o valor do brincar precisasse ser constantemente justificado, medido e avaliado por indicadores de desempenho.
De acordo com o Censo Escolar de 2024, quase 80% das nossas crianças entre 4 e 5 anos estão matriculadas na escola pública. Isso confere a essa instituição um papel central na garantia de direitos e no cuidado com as infâncias. Ao mesmo tempo em que avançamos para a universalização da pré-escola no País, somos confrontados com o desafio de garantir que essa presença física na escola não signifique o aprisionamento das infâncias em rotinas excessivamente formatadas e em ambientes que sufocam a ludicidade. Afinal, brincar não é um luxo, é uma forma de estar e conhecer o mundo.
Uma pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, realizada em mais de mil escolas públicas brasileiras, revela que 42% das turmas da educação infantil não oferecem momentos de brincadeira livre. O dado é alarmante. Revela um sistema que, mesmo com leis e diretrizes que reconhecem o brincar como eixo estruturante da educação infantil, continua operando sob a lógica da produção em série. A escola pública, para entrar no sistema de larga escala, enrijece sua estrutura e padroniza suas práticas. E com isso perde-se algo essencial: a escuta atenta às infâncias, o respeito ao ritmo próprio de cada um, o acolhimento de suas curiosidades e expressões.
Mas há alternativas. As instituições de ensino podem ser transformadas em verdadeiros refúgios de encantamento e descoberta. É possível construir cotidianos escolares que priorizem o tempo prolongado da brincadeira, o espaço aberto à invenção, a valorização dos pequenos gestos e das relações afetivas. Para isso, é preciso uma mudança de paradigma. Em vez de adaptar a criança à escola, que tal adaptar a escola às crianças?
Garantir tempo e espaço para que as crianças interajam entre si, com o ambiente natural e com os materiais disponíveis, sem a pressa da produtividade, é um ato político. É proteger um território simbólico e sensível que só existe quando os adultos decidem cuidar dele. O brincar livre exige uma dose de confiança que se sustenta quando os educadores também acessam sua própria dimensão brincante, suas memórias afetivas, suas experiências de infância. Quando os adultos se permitem estar presentes, inteiros, disponíveis. Renata Meirelles, pesquisadora e coordenadora do projeto “Território do Brincar”, nos convida a pensar na criação de um campo invisível que sustente e proteja o brincar. Esse campo não se constrói com regras rígidas ou propostas fechadas, mas com escuta, atenção e respeito às escolhas das crianças. Elas precisam de um ambiente que favoreça a criação, que permita a pausa criativa, a experimentação sem medo de errar.
A escola pública de educação infantil pode ser um lugar onde se compartilham encantamentos. Quando uma criança brinca, ela está inteira no que faz. Quando um adulto abre espaço para essa aprendizagem viva e significativa, aprimora sua intencionalidade pedagógica. Crianças felizes e motivadas aprendem mais. Por mais alegria, tempo livre e afeto no chão da escola. E menos rigidez e pressa. O cotidiano dedicado à vitalidade e às sutilezas das crianças é um alerta aos habitantes de um mundo hiperfocado na produção, eficiência e consumo.
