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Opinião | Governo Trump começará a encontrar limites em 2026

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21.02.2026

O ano de 2025 foi marcado por uma agenda declaradamente disruptiva do governo de Donald Trump. O presidente norte-americano impôs tarifas que abalaram a ordem global do comércio, criou o Departamento de Eficiência Governamental (Doge) para tentar reduzir o tamanho do Estado (supostamente para conter sua captura por forças progressistas), usou o Poder Executivo para pressionar universidades, escritórios de advocacia e a imprensa e, mais recentemente, enfraqueceu a aliança transatlântica com a Europa.

Algumas dessas iniciativas são prerrogativas formais do Executivo; outras são juridicamente controversas. Mas todas buscam expandir o poder presidencial, enfraquecer o sistema de freios e contrapesos institucionais e, no plano internacional, romper com pilares centrais da ordem multilateral de comércio e segurança construída após a 2.ª Guerra Mundial. A investida de Trump tem alimentado questionamentos sobre a solidez da democracia norte-americana. Quais são os limites reais de atuação de um presidente dos Estados Unidos?

Esse experimento “revolucionário”, no entanto, não é tão atípico quanto pode parecer. E, mais importante, é bastante provável que seus limites se tornem visíveis já em 2026.

Há claros precedentes históricos. O primeiro remonta ao governo de Andrew Jackson (1829–1837), que utilizou o veto presidencial de forma inédita e confrontou abertamente o Congresso e a Suprema Corte. O resultado foi a consolidação do poder federal. Outro vem da gestão de Franklin Delano Roosevelt (1933–1945), quando o New Deal ampliou significativamente a atuação do governo federal na economia e testou os limites institucionais, inclusive em choque direto com a Suprema Corte.

Trump se insere nessa tradição ao buscar ampliar os poderes do Executivo. Mas, em 2026, os limites desse grande experimento devem começar a surgir. A Suprema Corte, ainda que majoritariamente conservadora, dificilmente avalizará todas as investidas do presidente. Embora tenha recentemente autorizado a continuidade das deportações, a Corte considerou inconstitucional o uso da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (Ieepa) como base para a imposição de tarifas. Mesmo que a Casa Branca encontre outros meios para impor tarifas, esse revés tem peso político relevante. Ao mesmo tempo, a Corte já se mostrou disposta a preservar a autonomia do banco central norte-americano.

A opinião pública, no entanto, deve impor o limite mais decisivo. A aprovação de Trump caiu de 46% em março de 2025 para 41% em fevereiro de 2026 – consequência, em grande parte, da alta do custo de vida. Ainda que a política tarifária não tenha gerado a recessão ou o surto inflacionário que parte dos economistas esperava, os consumidores sentiram o impacto nos preços. Hoje, a inflação é o tema em que o governo é mais mal avaliado, com a desaprovação superando a aprovação em 25 pontos porcentuais. Ao mesmo tempo, Trump começa a perder apoio nas questões de imigração, justamente a agenda que sustentava a sua popularidade. Em junho de 2025, a avaliação positiva superava a negativa por quatro pontos; agora, há um déficit de cerca de doze pontos.

A tendência é que o desgaste se intensifique. Do ponto de vista econômico, deportações em massa pressionam custos nos setores de serviços, construção e agricultura. No plano externo, iniciativas envolvendo a Venezuela, a Groenlândia e, mais recentemente, o Irã, não têm apoio popular porque pouco dialogam com o custo de vida – a principal preocupação do eleitorado.

Esse cenário aumenta significativamente a probabilidade de que os republicanos percam a maioria no Congresso nas eleições de novembro e ampliará as inquietações dentro do próprio partido quanto à sucessão presidencial em 2028. Trump dificilmente perderá o controle do Partido Republicano; parlamentares continuarão relutantes em confrontar um líder ainda popular entre seus eleitores. Mas um presidente politicamente enfraquecido, com horizonte curto de poder, altera os cálculos de todos os demais atores.

A história internacional é clara: líderes com alta aprovação popular têm muito mais espaço para concentrar poder no Executivo. Quando essa aprovação cai, os pontos de veto reaparecem. O setor privado tende a se sentir menos intimidado. Uma câmara não controlada pelos republicanos e um senado mais independente podem voltar a impor limites, inclusive às iniciativas militares no exterior.

É provável que, diante desse cerco crescente, Trump dobre a aposta, tanto no discurso quanto nas ações, interna e externamente. Isso deve produzir novas manchetes e episódios de confronto. Mas o terreno doméstico tende a se tornar cada vez menos favorável. Em democracias consolidadas, a ousadia presidencial encontra limites não apenas na lei, mas também na política. E tudo indica que esses limites começarão a se impor mais claramente este ano.


© Estadão