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Opinião | Transtornos alimentares são comuns entre nutricionistas — e por que isso importa para você

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23.02.2026

Existe um dado que pouca gente comenta: nutricionistas e profissionais de educação física estão entre as categorias com maior risco para comportamentos transtornados e transtornos alimentares – o que não significa que sejam maus profissionais, é bom frisar. Isso ocorre por alguns motivos: alguns buscam esse tipo de profissão ou especialização na tentativa de entender ou até tratar suas próprias questões corporais e/ou acabam desenvolvendo comportamentos doentios justamente por estarem mais expostos a cobranças com relação a seu corpo e seus comportamentos.

Poucas coisas posso afirmar com certeza absoluta, mas uma delas é: não existe um nutricionista que nunca ouviu coisas inadequadas como “nossa, mas nutri come isso?”, ou variações como “se o nutri está comendo, então tudo bem”. Pode soar como brincadeira, mas não é. E os nutricionistas não são os únicos cobrados pela alimentação: personal trainers e endocrinologistas também passam por isso. São profissionais que vivem constantemente sob julgamento com relação também à sua capacidade de controle, seu peso corporal e, de algum tempo para cá, sua musculatura e performance nas redes sociais. Perfomance no sentido de “vida performática”, na qual o profissional tem que se vender por essas plataformas e estar sempre com o “shape” perfeito. Afinal, atualmente o corpo e o número de seguidores são mais valiosos que o currículo.

Para completar, a magreza extrema voltou a ser valorizada como sinônimo de saúde. Medicamentos, anabolizantes e protocolos cada vez mais restritivos são romantizados.

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Para quem tem um olhar mais treinado e algum conhecimento na área, é fácil encontrar nutricionistas e outros profissionais vendendo nas redes sociais uma rotina “saudável” que, na verdade, é marcada por rigidez, obsessão, sofrimento e angústia. Claro que não dá para diagnosticar alguém a partir de um perfil — até porque quem diagnostica transtorno alimentar é o médico psiquiatra —, contudo, é fácil perceber comportamentos transtornados.

Não se engane: transtornos alimentares são doenças psiquiátricas graves, com alto sofrimento psíquico e que apresentam uma das maiores taxas de mortalidade entre os transtornos mentais — entre elas, a anorexia nervosa se destaca.

Como um profissional assim oferece riscos ao paciente?

Vou ilustrar com alguns de meus casos clínicos.

Uma paciente minha já recebeu a seguinte orientação de uma nutricionista fisiculturista: como ela não conseguia pesar os legumes da sopa que era preparada por sua funcionária, aquela refeição deveria ser considerada uma das duas “refeições livres” a que minha paciente teria direito na semana. Pense no que isso comunica: se você não tem controle absoluto da quantidade de abobrinha e cenoura que colocou no prato, está transgredindo. Ou, que se você não sabe exatamente o que tem na sopa de legumes, ela se equipara a uma refeição com hambúrguer, batata-frita e sobremesa. Minha paciente disse que achou um absurdo e não voltou mais. Mas quantos não se submeteriam a isso?

Há também o caso de uma paciente com amenorreia, sem menstruar há 6 meses, que chegou a mim por indicação de seu ginecologista, pois o nutricionista anterior havia passado uma dieta restritiva para ela emagrecer. Veja bem, a amenorreia, que é um quadro preocupante de saúde, está relacionado a baixo peso e baixa gordura corporal. Essa paciente já havia perdido 30% do seu peso — e isso era uma resposta do seu corpo de que estava em um processo adoecido. O profissional, ao invés de identificar o quadro, indicou uma dieta restritiva para uma pessoa muito magra e doente mental e fisicamente.

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É aqui que entra um conceito a que me refiro com frequência: a iatrogenia. É quando uma intervenção em saúde, ao invés de tratar ou ajudar, causa danos, que podem ser físicos e/ou psicológicos. Condutas extremamente rígidas podem gerar exatamente aquilo que deveriam prevenir: culpa, compulsão, medo da comida e gatilhos para comportamentos inadequados e prejudiciais. Pode criar transtornos alimentares em quem não tinha — ou agravar os que já existiam.

Um profissional que tem transtorno alimentar ou questões importantes com a alimentação e o seu corpo corre o risco de transferir suas inseguranças para o paciente — o que pode se refletir em metas irreais, cobranças excessivas, dietas extremamente restritivas, intolerância a erros e baixa flexibilidade.

Quero reforçar que ter um transtorno alimentar não torna necessariamente alguém um mau profissional: mas é fundamental que essa pessoa reconheça a doença e a trate de forma correta e responsável.

Já a você, paciente, o melhor a fazer antes de se consultar com algum profissional é entender se a abordagem fala sobre saúde ou terrorismo. Ele promove autonomia ou dependência? Ele preza pelo equilíbrio ou controle? Esses são passos importantes para saber se o tratamento está indo em direção à saúde ou não. Lembre-se: rigidez não é sinônimo de cuidado. Pelo contrário.


© Estadão