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Repensar o turismo na era dos combustíveis caros

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Ainda que não seja a face mais visível do setor, o Turismo é uma das indústrias mais dependentes dos combustíveis fósseis. A esmagadora maioria das deslocações efetuadas no contexto das viagens assenta no uso dos diferentes tipos de combustíveis, sejam eles gasolina, gasóleo, jet fuel, gasóleo marítimo ou gás natural liquefeito.

Neste sentido, a alta do valor do petróleo está já a gerar impactos negativos, com a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) a dar conta da mais do que duplicação do preço do jet fuel no espaço de um mês.

A fatura que pode chegar depois do contrato celebrado

Vários CEO de companhias aéreas já deram a conhecer a intenção de subida das tarifas. No presente é importante que os viajantes nacionais estejam cientes de que a legislação nacional, através do Regime de Acesso e de Exercício da Atividades das Agências de Viagens e Turismo, prevê que o preço de uma viagem organizada possa sofrer um aumento depois de celebrado o contrato e caso este o preveja. Estas variações podem ser fruto do aumento do custo do transporte de passageiros resultante do preço do combustível ou de outras fontes de energia, dos impostos ou das taxas que incidem sobre os serviços de viagem incluídos ou nas taxas de câmbio aplicáveis à viagem organizada.

A conjuntura atual conduz-nos até à primeira condição prevista na lei para o eventual aumento do preço da viagem organizada após celebração do contrato. Este aumento deve ser transmitido ao viajante de forma clara e compreensível, não podendo exceder 8% do valor da viagem.

Perante este cenário, as agências de viagens podem enfrentar um dilema ético e comercial entre a possibilidade de solicitar um reforço de pagamento ao cliente ou absorver a diferença a expensas próprias para proteger a sua imagem e fidelizar o mercado. Para as agências de viagens e turismo, esta escolha será o primeiro teste de sobrevivência de 2026.

Fim da viagem low-cost?

Será o fim da era dos voos baratos ou apenas um parêntese no crescimento do transporte aéreo? Ainda é prematuro tirar conclusões, uma vez que não é claro se o preço elevado do petróleo será algo conjuntural ou estrutural. Certo é que depende da vontade de poucos, mas poderosos, decisores políticos.

Não querendo traçar um cenário apocalíptico para turismo, há algum tempo que surgem sinais de que a era do turismo barato (vulgo low cost) pode estar a aproximar-se do fim. Esta transformação pode dever-se a vários fatores, entre eles, custo da energia/combustíveis, custo/escassez de mão de obra ou medidas de mitigação do impacto do turismo.

Todavia, esta transformação não se prende apenas com custos de operação, mas também com as prioridades dos viajantes. Em 2024, a consultora Simon-Kucher abordava o tema, referindo que o facto de os turistas buscarem práticas mais sustentáveis e destinos menos massificados, tem conduzido a transformações no setor, introduzindo um novo paradigma no que diz respeito ao volume e ao valor.

Estas transformações não são, necessariamente, más para os destinos turísticos. A disponibilidade para despender maiores quantias nos locais visitados, permite aos destinos obter mais benefícios da presença dos turistas, enquanto estes têm maiores preocupações com o impacto da sua viagem. Permitirá também remunerar de melhor forma a já escassa mão de obra.

Este afigura-se como mais um teste à resiliência a um setor habituado nas últimas duas décadas de crescimento, embora com momentos de  grande instabilidade, seja por razões económicas, sanitárias ou políticas.

Uma crise, seja de que natureza for, deverá conduzir, necessariamente, os dirigentes políticos e organizacionais a uma reflexão sobre o setor. As crises podem, desta forma, ser encaradas como oportunidades para explorar novas realidades e reinventar um destino.

Ainda que 2026 possa ser um bom ano para o turismo português fruto do desvio de turistas de outros destinos, estamos tão ou mais dependentes do transporte aéreo como os nossos concorrentes diretos. A nossa posição periférica e falta de aposta na ferrovia faz de nós um destino vulnerável às variações do custo da energia.

A nova estratégia para o turismo nacional tarde em ser tornada pública, mas, chegados ao final da década de 2020, talvez seja o momento certo para repensar Portugal como um destino assente no valor e menos no volume.


© Dinheiro Vivo