Camões, contemporâneo do nosso desencanto
O caráter contraditório e de permanente tensão consigo mesmo marca a épica de Camões, que nos ensinaram a ser obra de pura celebração e louvor. Esta análise mais fina de um Camões que levanta a sua voz, crítica e desiludida, no meio do cenário da sua exaltação épica, já tinha sido percebida pelos melhores leitores da sua obra, como Jorge de Sena ou Eduardo Lourenço. Mas um recente e notável livro de Helena Buescu (Camões Poeta, Herói nos Lusíadas, Tinta da China, 2026), vem realizar um exame mais aprofundado desta questão, partindo curiosamente de uma ideia de Keats sobre a “negative capability” do poeta, que lhe permite permanecer no meio das incertezas, dos mistérios e das dúvidas, sem procurar esclarecê-las, indo além de factos e razões, no sentido da Beleza.
É pois a partir de um romântico maior, que Helena Buescu examina a........
