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“Deus voltou à rádio”

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28.03.2026

“Regresso de peito aberto, no duplo sentido que a afirmação ganha desde que, há algum tempo, me rasgaram o tórax, para melindrosa afinação da máquina lírica. Entretanto, não dei conta de que tenha voado para longe o pássaro azul que tantas vezes se escapou do peito de Bukowski. Entro na casa e sento-me para, desse modo, caminhar sem fim. Sou um septuagenário quase de partida e acabo de regressar a casa.” Fernando Alves Andava há dois anos com um nó contorcido na garganta sempre que ligava a rádio. Sem chama, sem voz, nem nervo. Tudo era uma pradaria em nevoeiro. Muitos embarcaram para a rádio pública, hoje uma referência em superlativo. Até ele foi. O maior. Aquele que rasga a infância até ao banco de jardim e que ousou pensar sentar-se por tempo indeterminado. Foram largos dias de luz apagada. O microfone começou a envelhecer. Os diálogos, a socalcos, venciam a resistência. Ouvir a TSF era um drama. Não só pelos que partiram como os outros que tiveram de zarpar sem querer. Faltava a voz. A sonoridade sem zumbido. O torpor engolido pelo espanto. No segundo dia deste mês voltei a sintonizar a casa da rádio que me enfeitiçou nos anos 90. Um postigo de deslumbramento que me fez chorar sem lágrimas. Ei-lo de volta. Cicatrizado, mas de volta. Fernando Alves é o fio mais perfeito da rádio. Sem ele, sugam-se os dias como o barco à deriva em alto mar. Com ele, o ouvido cresce. As narinas abrem. Os olhos iluminam-se. Sei que nenhum corpo é eterno como sei que a alma pode perdurar até onde o nosso mais secreto pensar voar. Não tenho palavras para explicar o que senti. Estava a conduzir. Fiz questão de o fazer porque foi dentro de um carro, noite dentro, que em 1993 o escutei pela primeira vez. Na altura, o ‘Postigo’ era a hora que mais procurava. Pelo assombro e pelo sobressalto. Da palavra. Do modo como casavam as frases. Do estilhaço do ouvir. Do nada dizer e da interrupção desmedida. Quem participava tinha a estrada com via verde. Sem semáforos. Foi assim por largo tempo até a repetição o cansar. O instrumental era um coro de silêncio e ferocidade, consoante os dias. Foram noites e noites, de luz apagada, no meu quarto, a absorver cada pausa, cada vírgula. Tantos anos depois, a conduzir, o regresso do instrumental mais amado. Os ‘Sinais’ são a minha ponte de reflexão. Uns dias são remanso, outros uma castidade que não consigo cumprir. À medida que ‘O vagaroso alvoroço’ assaltava os quilómetros, mais detinha o olhar. Iniciou com a inversão de marcha para a amada rádio: “regresso a casa e é como se, num lance impetuoso do coração, estivesse já partindo”. Ele que gosta do abismo, do fio da navalha, de pensar “talvez me espalhe hoje”, que teria na algibeira quando o microfone abriu? Já vai longe o acreditar que podemos pegar de estaca e irmos “até ao fim do mundo, até ao fim da rua”, mas nada apaga “a rádio que mudou a rádio”. É dele e de tantos apóstolos que o aplaudem. Sou um ínfimo, mas estou no vácuo da sonoridade. 1 Correio do Minho | Artigo de Opinião O feliz do dia contrastou, nessa semana, com o adeus de Lobo Antunes, carregado ao som do hino do Benfica e da leitura do soneto "Na Mão de Deus", de Antero de Quental. Rui Couceiro, por quem detenho admiração profunda, vertia nas redes sociais: “numa semana triste para quem gosta das palavras, a melhor notícia foi o regresso dos ‘Sinais’, do grande Fernando Alves”. Já não tenho idade para me vergar. Nem importa em tempos onde a ode é um carrossel de barulho que esmaga a profundidade da palavra. Porém, a minha resiliência não apaga o quão sou grato a quem me fez e continua a fazer crescer. Tenho-me remetido aos livros, “navios voadores” como descreve o poeta da rádio. Imagino a proa em busca do farol perdido por entre ondas e vagares. É neste vagar que procuro recompor-me. Quero o pasmo embora hoje a ilusão da luz habite naquele tempo que foi sacudido sem merecer. E assim termino esta crónica no resgate da frase que terminou o regresso dos imensos ‘Sinais’: “assim procuro o depressa que só existe no vagar, o vagaroso alvoroço. Possa em algum momento confundir-me com o caminho, com o desejo de prosseguir o caminho, ficando”. Fiquei.

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