“Os 80 anos da Mabor”
Assinalam-se amanhã os 80 anos da fábrica de pneus Mabor, situada na freguesia de Lousado, concelho de Vila Nova de Famalicão. Trata-se de uma das maiores empresas portuguesas, que tem sabido resistir às flutuações do mercado ao longo de oito décadas. A fábrica de pneus Mabor foi inaugurada no sábado, dia 6 de abril de 1946, numa cerimónia que contou com a presença de vários membros do Governo, do CardealPatriarca, do Conde da Covilhã e até do Embaixador dos Estados Unidos da América, que se deslocou propositadamente a Lousado. A construção desta fábrica, numa localidade então marcada pelas fracas qualificações dos seus habitantes, pelo desemprego, pela fome e por uma profunda miséria, foi idealizada por Júlio Anahory de Quental Calheiros, conhecido como o 3.º Conde da Covilhã, título autorizado por D. Manuel II, então no exílio. Importa referir que o nome Mabor encerra também uma história de paixão de Júlio Calheiros pela sua esposa, Maria Emília Fernandes Borges, filha do banqueiro portuense Francisco Borges, uma vez que o nome da fábrica corresponde às iniciais do nome da esposa (MA – Maria; BOR – Borges). Idealizada em 1938, logo a sua construção foi confrontada com o início da 2.ª Guerra Mundial, que afetou profundamente a chegada de materiais necessários para a construção da fábrica, também porque “os mecanismos de produção de pneus e camaras de ar vieram dos Estados Unidos da América, já porque, tratando-se de uma delicada inovação industrial, foi mister recorrer á técnica norte-americana, a mais autorizada naquela indústria”. (1) De referir ainda que as primeiras matérias-primas, destinadas à produção de pneus, não foram nada fáceis de obter, dificultadas pelo conflito mundial. Só com a união de todos os envolvidos foi possível concretizar este projeto, funcionando “a criação da nova indústria (…) um acontecimento nacional de extraordinário vulto”. (1) A comitiva especial que participou na inauguração desta fábrica de pneus veio de Lisboa, de comboio, tendo desembarcado na estação ferroviária de Lousado pelas 15h00 desse dia 6 de abril de 1946. Nas imediações da fábrica foram estacionando dezenas de automóveis, e eram milhares as pessoas que se encontravam nas bermas, formando uma multidão que fazia lembrar as tradicionais romarias da região. Estavam também presentes comerciantes e industriais de Vila Nova de Famalicão, Santo Tirso, Guimarães, Trofa, Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Porto, entre outras localidades. Quando os convidados começaram a sair da estação ferroviária de Lousado, formou-se de imediato um cortejo, encabeçado pelas corporações de bombeiros de Vila Nova de Famalicão, pela Banda de Música de Lousado e pelas crianças das escolas da localidade, vestidas com um elegante traje branco. Seguiam-se D. Manuel Gonçalves Cerejeira (CardealPatriarca), o Embaixador dos EUA, Herman B. Baruch, os membros da administração da Mabor, o Arcebispo de Braga, o Bispo do Porto, o Ministro das Finanças (Costa Leite), os Subsecretários de Estado da Educação, dos Negócios Estrangeiros, das Comunicações e das Colónias, os Governadores Civis de Braga (Henrique Cabral) e do Porto (Joviano Lopes), bem como os Presidentes das Câmaras de Braga, Guimarães e Vila Nova de Famalicão. No interior de uma das secções da fábrica foi instalado um altar, onde se realizou uma cerimónia religiosa presidida pelo CardealPatriarca, pelo Cónego Honorato Monteiro e pelos párocos de Lousado e de Nine. A música e os foguetes que marcaram os instantes seguintes criaram um momento de enorme emoção para todos os presentes, já que “o povo mal cabe nas ruas e carreiros”. Todos queriam testemunhar de perto este acontecimento ímpar, e “a alegria contagia os corações. Dia grande. Em uníssono, todos aclamam os ilustres visitantes e não perdem de memória o nome das pessoas que tornaram possível o enorme sonho - hoje realidade palpável e indesmentível”. (1) O Conde da Covilhã, membro da administração da Mabor, tomou então a palavra, afirmando que a construção da empresa só foi possível graças ao empenho do Governo de Oliveira Salazar. Agradeceu ao engenheiro Sebastião Ramires, que em 1935 subscreveu o primeiro despacho autorizando Carlos Farinha a instalar uma fábrica de pneus em Portugal; ao Ministro das Finanças, cujo nome está ligado ao alvará de 1940; ao Professor Ferreira Dias; aos engenheiros Albano Sarmento e Cancela de Abreu; e ao Dr. Supico Pinto. De seguida, falou o Ministro das Finanças, que destacou o interesse do Governo de Oliveira Salazar pelas classes trabalhadoras. Referiu ainda ser uma grande honra para Lousado “ter dado ao País S. E. o Senhor CardealPatriarca que, por certo – afirmou – assiste a esta festa de coração a bater de um grande contentamento que não pode ser facilmente descrito”. (1) O Embaixador dos EUA, Herman B. Baruch, interveio depois, referindo que a fábrica Mabor produz 50 pneus por dia, mas tem capacidade para produzir 300 diariamente, número suficiente para suprir as necessidades de todo o país. Acrescentou que a localização da fábrica é particularmente favorável, pois dispõe de “água pura, fresca e clara, indispensável a esta indústria”, e destacou a aliança entre a técnica americana e o capital e o espírito de iniciativa portugueses. (1) Por fim, usou da palavra o CardealPatriarca, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, natural de Lousado, que agradeceu ao Governo a concretização desta importante obra, afirmando: “Eu aqui quero ser simplesmente a voz que diz muito obrigado – a voz de Deus e a voz do Povo”. Ao longo dos seus 80 anos de existência, a Mabor cresceu de forma sustentada, afirmando-se hoje como uma das mais importantes indústrias do país. Em 1990, a Mabor uniu-se à Continental, fusão que transformou a empresa numa das maiores produtoras de pneus da Europa. Consultando o website da empresa, podemos verificar que atualmente “a Mabor personifica o temperamento português”. Acrescenta-se ainda que “os pneus Mabor são da terra dos descobridores e agora exploram as estradas por toda a Europa. Tecnologia de ponta assegura uma condução segura com um toque de paixão portuguesa”. O percurso da Mabor é, no fundo, a história de uma visão que se tornou indústria, de uma fábrica que se tornou símbolo e de uma comunidade que cresceu com ela. O que começou como um ousado projeto no coração de Lousado transformou-se numa referência nacional e europeia, capaz de unir tradição, inovação e identidade. Oito décadas depois, a Mabor continua a mover-se pelo engenho de quem a construiu e pela dedicação de todos os que, dia após dia, lhe dão vida. Assim, celebrar estes 80 anos é celebrar o trabalho, a resiliência e o orgulho de uma empresa que, tal como os seus pneus, mantém Portugal em movimento.
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