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“Por dentro e por fora do portão…”

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30.03.2026

Quem acompanha os noticiários com atenção não estranha a frequência com que a escola surge, não como devia, numa notícia de algum sucesso ou inovação na aprendizagem, mas como cenário da deteção de uma qualquer crise: de violência doméstica detetada por um professor, de uma criança sem alimentação adequada identificada por uma auxiliar, ou de adolescentes em sofrimento mental ou em abuso sinalizados por um psicólogo escolar. A escola tornou-se, de forma não planeada, mas inevitável, o principal ponto de contacto permanente do Estado com as famílias. Ao lado das unidades de saúde, é ela, na prática, a única instituição massiva que vê e acompanha regularmente crianças e jovens — e, por extensão, os respetivos contextos familiares. Esta posição privilegiada, que devia ser complementada por uma rede robusta de apoio de serviços externos, continua solitária. As respostas das instituições do meio envolvente chegam tarde, chegam incompletas ou simplesmente não chegam. A articulação imediata, após a deteção de um problema — aquela janela crítica em que a intervenção faz toda a diferença — é, em muitos casos, uma utopia prolongada. Falar de sucesso educativo, sem falar do que acontece fora da sala de aula, é um debate muito incompleto. Um aluno que vive num contexto de violência doméstica não aprende melhor com melhores manuais. Uma criança com perturbação de linguagem não diagnosticada não supera as dificuldades de leitura só porque o professor tem boa vontade. Um adolescente em crise de ansiedade severa não resolve o problema com uma boa ficha de revisões. Do que estes jovens precisam — e o que a escola, quando tem meios, tem sabido dar — é de uma rede de apoio que os individualize, que funcione rapidamente, que chegue antes que o problema se torne irreversível, e que vá, quando necessário, para lá do portão. É esse o contexto que a escola atual foi obrigada a implementar: o do técnico de serviço social que sai da escola para visitar uma família, o do mediador linguístico-cultural que acompanha um aluno recém-chegado de qualquer país e que não percebe uma palavra do que lhe dizem nas aulas ou do psicólogo que não se limita a fazer testes de orientação vocacional, mas que intervém na crise, que fala com os pais e que articula com os serviços de saúde mental, quando os há — e que, quando não há, improvisa o melhor que pode. E assim sucede connosco, no Agrupamento de Escolas Alberto Sampaio. Face à pressão experienciada e à complexidade da realidade, o nosso Gabinete de Apoio aos Alunos e à Família (GAAF) foi crescendo, a nível de técnicos superiores, até contar, atualmente, com cinco psicólogos — um deles exclusivamente dedicado aos alunos das Unidades de Apoio à Aprendizagem e à Inclusão (UAARE) —, uma técnica de serviço social, uma terapeuta da fala e dois mediadores linguístico-culturais. A estrutura alberga, ainda, a nível da saúde escolar, uma enfermeira externa especialista em enfermagem comunitária, por parte da Unidade de Local de Saúde, e os diversos elementos internos das Equipa de Português Língua Não Materna (PLNM) e da Equipa Multidisciplinar de Apoio à Educação Inclusiva (EMAEI), estrutura dos agrupamentos de escolas de promoção da inclusão, nas suas diversas dimensões, criada pelo Decreto-Lei n.º 54/2018, de 6 de julho. Para perceber melhor a evolução realizada, há doze anos atrás, aquando da criação do AESAS, toda estas estruturas não existiam. Dispúnhamos, somente, de uma psicóloga com vínculo precário e de uma assistente social a tempo parcial, que, pouco depois, teve de se reformar... O resto era silêncio — e problemas que ficavam por resolver. Uma evolução que, ainda assim, não chega. Porque a realidade não parou de crescer enquanto as respostas foram sendo construídas. Porque há jovens com diagnósticos psiquiátricos em listas de espera que duram mais do que um ano letivo. Porque há famílias que precisam de acompanhamento intensivo e recebem, quando muito, uma visita trimestral. Porque há crianças com dificuldades de linguagem que só são identificadas quando chegam tardiamente à escolaridade e porque há crianças que precisam de terapias diárias que a escola não consegue — ou não deveria... — prestar. A escola não pode ser a única resposta. Mas enquanto não existir uma rede complementar de serviços ágil, articulada e com capacidade de resposta imediata, a escola vai continuar a ser a resposta possível. Necessitando, entretanto, e por isso, dos meios — humanos, financeiros, institucionais — à altura do que faz. Mas também já há alguns bons exemplos de articulação com a envolvente: como já referido, a articulação com as Unidades Locais de Saúde materializou-se, no nosso caso, numa enfermeira alocada ao Agrupamento — uma presença que tem feito diferença concreta na política de saúde escolar e dos nossos jovens, num acompanhamento discreto, mas essencial, que só quem está no terreno consegue fazer. Também a excelente parceria com as forças de segurança, via Escola Segura, evoluiu muito, acrescentando uma camada de proteção que, ainda, poderia ser significativamente reforçada com a reintrodução dos delegados de segurança internos das escolas. Relevante, também, tem sido a abertura do Município em apoiar projetos de intervenção nas escolas e a interação do GAAF do AESAS com parceiros de solidariedade social da envolvente, completando um quadro que, sem ser perfeito, é substancialmente melhor que o de há uma década. Este é um debate em aberto: porque, hoje, educar é também cuidar e o cuidar não pode esperar, onde deve começar e terminar o papel da escola? A escola não pediu para ser o último bastião. Mas todos os dias, quando abre o portão, é isso que é. O mínimo que lhe podemos dar é trabalhar para que não tenha de o fazer sozinha.

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