Quando a democracia falha: quem governa — e para quem?
Há uma ilusão confortável que ainda resiste no debate público: a de que a democracia se sustenta simplesmente porque há eleições. Como se votar, por si só, garantisse legitimidade, representação e compromisso com o interesse coletivo. Não garante. Nunca garantiu.
A democracia liberal — tal como estruturada no pós-guerra — sempre combinou dois elementos distintos: o procedimento eleitoral e um conjunto de instituições destinadas a limitar o poder e assegurar direitos. Durante décadas, esse arranjo foi apresentado como o horizonte superior da organização política. Hoje, no entanto, ele atravessa uma crise que não é episódica, mas estrutural.
Essa crise não se expressa apenas no avanço da extrema direita, embora isso seja seu sintoma mais visível. Ela se revela, sobretudo, na incapacidade crescente desses sistemas de responder às demandas concretas da população. A distância entre governantes e governados deixou de ser uma metáfora — tornou-se experiência cotidiana.
É nesse ponto que a pergunta central emerge, incômoda e incontornável: para quem se governa?
A formulação inspira-se em diferentes intervenções de Xi Jinping sobre governança e democracia, especialmente na defesa da chamada “whole-process people’s democracy”, sistematizada em discursos oficiais e no documento China: Democracy That Works (State Council Information Office, 2021), onde se argumenta que a legitimidade política deve ser avaliada não apenas por procedimentos eleitorais, mas pela capacidade de resposta do sistema às demandas populares.
A concepção reiterada pelo presidente chinês Xi — sobretudo ao defender uma “democracia centrada no povo” e, mais recentemente, a ideia de “democracia popular em todo o processo” — desloca o debate do plano formal para o plano substantivo. Em diferentes intervenções, Xi tem insistido que a qualidade de um regime político não pode ser medida apenas pela existência de eleições, mas pela capacidade efetiva de o poder responder às demandas da sociedade e produzir resultados concretos.
A ideia associada a Xi Jiping não é apenas retórica política; ela expressa uma concepção distinta de legitimidade. Ao deslocar a pergunta clássica — “como se governa?” — para “para quem o poder é exercido?”, o eixo da análise sai das regras........
