A Cúpula de IA da Índia e o silêncio sobre o Sul Global
Os países participantes da Cúpula sobre Impacto de IA, realizada na Índia nesta semana, estão a poucos passos de aprovar uma declaração de líderes que fica muito aquém das necessidades dos grandes mercados em desenvolvimento. Como ocorreu nas edições precedentes do evento criado pelo G7, muitos esperavam que o encontro marcasse uma virada na forma como o mundo pensa a governança da inteligência artificial — uma perspectiva genuinamente diferente daquela produzida nos fóruns liderados por países do Norte Global. A expectativa fazia sentido porque, pela primeira vez, um país do Sul Global ocupava o centro do palco. O resultado, porém, pode decepcionar. A Declaração de Líderes que está sendo negociada é mais principiológica do que normativa e, ao silenciar sobre as questões estruturais mais urgentes, acaba por legitimar exatamente o estado de coisas que deveria desafiar.
O documento organiza sua visão de governança da IA em torno de sete "Chakras" — pilares que incluem capital humano, acesso social, confiabilidade, eficiência energética, ciência, democratização e crescimento econômico. O tom é aspiracional e filosoficamente ancorado em conceitos da cultura indiana, como Vasudhaiva Kutumbakam ("o mundo é uma família"). Para além da retórica, contudo, o que a declaração propõe são plataformas e instrumentos voluntários e não vinculantes — uma Trusted AI Commons, um Global AI Impact Commons, uma Rede Internacional de IA para Instituições Científicas — como se a cooperação informal fosse suficiente para reequilibrar uma corrida tecnológica cujas fichas estão profundamente concentradas nas mãos de um punhado de empresas estadunidenses e chinesas.
A omissão mais grave diz respeito à soberania digital do Sul Global. O documento menciona "soberania nacional" apenas de passagem e de forma protocolar, sem nenhum mecanismo concreto que garanta que países em desenvolvimento possam desenvolver IA de........
