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Precisamos voltar às bases

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21.09.2026

Em 23 de outubro de 2018, nos Arcos da Lapa, com Chico Buarque e Caetano Veloso no palco e Fernando Haddad a cinco dias de perder a eleição, Mano Brown pegou o microfone e disse o que ninguém ali queria ouvir: “Se nós somos o Partido dos Trabalhadores, o partido do povo, nós temos que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta para a base e vai procurar saber.”

E emendou, para quem ainda batia palma, que “há uma multidão que não está aqui que precisa ser conquistada. Ou a gente vai cair no precipício”. Caímos. A frase virou veredito, foi repetida em diretório, em podcast, em mesa de bar, e oito anos depois continua sendo a explicação oficiosa (a oficial não existe) da crise do projeto progressista no Brasil.

Ocorre que a frase é forte mas está errada. O diagnóstico está certo – o partido de fato não sabe mais quem vota nele. O endereço está errado. Quando Mano Brown diz “base”, todo mundo ouve periferia, quebrada, povão, e o partido saiu correndo atrás de um eleitor que nunca foi embora. A multidão que não estava ali na Lapa era outra. É dela que este texto trata.

O Datafolha de 8 a 10 de setembro ouviu 2.002 pessoas e deu Lula 39, Flávio Bolsonaro 35. O número que importa, contudo, está no recorte de renda. Entre quem ganha até dois salários mínimos, Lula tem 47% e Flávio 29. Acima de cinco salários a coisa inverte: Flávio 44, Lula 28. A faixa do meio, entre dois e cinco salários, ninguém posta no grupo de WhatsApp. Guardem isso, porque volto a ela adiante.

Esse desenho não é novidade de 2026. Em dezembro de 2003, um ano do primeiro governo Lula, o mesmo Datafolha media 42% de ótimo e bom contra 15% de ruim e péssimo, e a aprovação já era maior na base da pirâmide do que no topo. Em 2006 André Singer batizou a coisa de realinhamento. Em 2018, sem Lula na cédula e com o candidato escolhido em setembro, a faixa de até dois salários foi a que menos abandonou o PT. Em 2022, se repetiu a mesma coisa. Vinte e três anos de série histórica dizendo a mesma coisa: quem ganha pouco vota em Lula.

E mesmo assim uma parte da esquerda inventou o “pobre de direita”.

O termo é horrível e a análise é pior. Horrível porque é ódio de classe travestido de sociologia … a mesma burguesia que chamava o nordestino de “paraíba” hoje chama o motoboy de “bolsonarista” e a “esquerda nutella”, vejam só, repete de bom grado. Pior porque é falso: os “pobres de direita” existem desde sempre, como existiam os operários integralistas nos anos 1930, porém, vale lembrar, sempre como minoria. Nunca foi neles que se decidiu uma eleição neste país.

Quando o partido compra a tese, comete três erros num só: erro de análise (persegue um fantasma), erro de comunicação (fala com um eleitor que já é seu, no tom de quem precisa convencê-lo) e erro de estratégia, o mais caro dos três, porque desvia toda a energia militante para a faixa em que o PT ganha e deixa livre a faixa de pessoas em que o PT perde. Foi por essa fresta que o fascismo entrou.

A classe média e o fascismo

Em 1951 Wright Mills........

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