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Momentos de bifurcação: de Gibraltar a Ormuz

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Durante a Idade Média (séculos XIII, XIV e XV), o Mediterrâneo era o centro comercial do Oriente com o Ocidente, o comércio do Levante. O Oceano Índico era então dominado pelos povos da região e, desde o século VIII, pelos árabes muçulmanos. O comércio mediterrânico tinha lugar entre mercadores cristãos (sobretudo das cidades-Estado italianas Veneza e Génova, e mercadores muçulmanos (do Mediterrâneo Oriental e do Norte de África) e estendia-se ao Oceano Atlântico para chegar à Europa Norocidental (o Noroeste do que é hoje a Espanha, o Sudoeste da Inglaterra e a Flandres, Bruges, destino final). No século XIII, as casas bancárias de Florença tinham 80 filiais na Europa que funcionavam simultaneamente como instituições financeiras e seguradoras de trânsito marítimo. Trocava-se de tudo e alguns produtos eram particularmente importantes. Desde a Antiguidade, o estanho do Noroeste da Espanha e do Sudoeste da Inglaterra era fundamental para produzir o bronze, o metal resistente por excelência da época. A pimenta, vinda do Oriente, tinha uma importância difícil de imaginar hoje. Era uma especiaria tão importante que frequentemente era usada como moeda para pagar direitos alfandegários, impostos e dívidas entre Estados. No triângulo entre os rios Sena e Reno e o Mar do Norte a mercadoria mais preciosa eram os tecidos. As galés da Flandres  uniam o Mediterrâneo ao Mar do Norte.

Acontece que, tal como hoje, o comércio e a guerra andavam a par e o estreito de Ceuta (hoje Gibraltar) era um ponto nevrálgico de enfrentamento. Os comerciantes muçulmanos (e não só) praticavam o corso e a pirataria e frequentemente bloqueavam o estreito, impedindo a passagem dos barcos cristãos ou exigindo pesadas taxas para permitir a passagem, o que contribuía para aumentar o preço dos produtos. Alguns produtos tornaram-se tão caros que desapareceram do mercado. Foi para pôr fim a estes bloqueios e à insegurança que os portugueses conquistaram Ceuta em 1415. Segundo os cronistas da época, ao tempo da conquista de Ceuta, 12 libras de pimenta, um produto típico do comércio do Levante, chegou a custar 32 shillings. Enquanto nas três décadas depois da conquista, o preço desceu sucessivamente para 16, 13 e 9 shillings.  1415 marca o início da expansão colonial da Europa (descobrimentos, reconhecimentos e achamentos) e da emergência da economia-mundo dominada pelo Ocidente. Com a tomada de Ceuta abre-se o comércio do Mediterrâneo, do Atlântico Norte e a expansão para Ocidente, a começar pelos arquipélagos dos Açores, da Madeira e das Canárias. 

Não se pense que o objetivo era a liberdade do comércio sem limites. Visava-se criar novos monopólios e zonas exclusivas de navegação, o mare clausum [mare fechado] que o Tratado da Tordesilhas (1494) iria consagrar. Só no século XVII o mare clausum seria substituído pelo mare liberum [mar aberto]. E isto ocorreu quando as burguesias do Norte da Europa se consolidavam no domínio do comércio mundial e convertiam o colonialismo num dos pilares da acumulação primitiva necessária ao desenvolvimento do capitalismo industrial, um processo histórico que atingiria o seu clímax na Conferência de Berlim (1884-95).

Menos de um século depois da conquista de Ceuta, em 1507, os portugueses conquistavam o estreito de Ormuz e construíam uma fortaleza na ilha de Ormuz junto à costa do que é........

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