Fiscalizar o vizinho ou fiscalizar o poder?
O debate em torno da Prestação Social Única trouxe novamente para a praça pública uma questão que vai muito além das prestações sociais. No fundo, estamos a discutir o tipo de sociedade que somos e o tipo de sociedade que queremos ser.
A proposta assenta numa ideia aparentemente simples: reforçar mecanismos de acompanhamento, controlo e responsabilização dos beneficiários das prestações sociais. Para uns, trata-se de uma questão de justiça e de boa gestão dos recursos públicos. Para outros, representa mais um passo na construção de uma cultura de suspeita sobre os cidadãos mais vulneráveis.
Mas talvez a questão mais importante seja outra: pode uma sociedade desenvolver-se quando a sua principal energia cívica é dirigida para a vigilância dos seus próprios membros?
O problema português não é apenas económico ou demográfico. É também um problema de confiança. Segundo a OCDE, apenas 32% dos portugueses afirmavam, em 2023, ter níveis elevados ou moderadamente elevados de confiança no governo, abaixo da média dos países da organização. Mais preocupante ainda, este indicador caiu nove pontos percentuais desde 2021. Estes números revelam uma fragilidade institucional que não se resolve com mais burocracia nem com mais mecanismos de vigilância. Resolvem-se através da........
