Por que sociedades não negacionistas elegem políticos negacionistas?
Por que sociedades não negacionistas elegem políticos negacionistas?
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Por que parcelas significativas da população que compreendem a magnitude dos riscos climáticos elegem representantes alinhados com agendas negacionistas? Por exemplo, nos países do G20, que concentram dois terços da população mundial, cerca de 69% das pessoas não negam as mudanças climáticas. Esse questionamento parece indicar um descompasso entre o avanço do conhecimento científico e a capacidade de resposta das instituições.
Nas últimas décadas, a ciência do sistema terrestre consolidou um corpo robusto de evidências sobre as mudanças climáticas e seus impactos. Esse diagnóstico tornou-se mais preciso, detalhado e amplamente difundido. Ainda assim, as respostas políticas têm se mostrado aquém da escala e da velocidade que o conhecimento disponível exige, quando não avançam na direção oposta.
Na última década, quando os eventos climáticos extremos cresceram exponencialmente, a desinformação científica pode ter sido parte relevante do problema, mas não esgota sua explicação. A recorrência desse padrão sugere que algo mais profundo está em jogo. Grandes parcelas da população, mesmo com acesso à informação, alinham-se a posições que negam as evidências disponíveis.
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Uma chave interpretativa possível está na noção de policrise e em seus desdobramentos psicológicos. Crises climáticas, econômicas, geopolíticas e sanitárias, entre outras, tornam-se mais concretas à medida que se relacionam, se complexificam e se retroalimentam. Esse amálgama exibe comportamentos típicos de sistemas complexos, como não linearidade, emergência, múltiplos estados de equilíbrio, marcados por incerteza estrutural.
Esse quadro impõe limites à forma como tradicionalmente compreendemos e enfrentamos os problemas. Modelos analíticos setoriais e compartimentados, baseados em premissas estacionárias ou em projeções tendenciais, tendem a perder capacidade explicativa em contextos dessa natureza.
No Brasil, Vladimir Safatle vem propondo a ideia de um sistema de crises conexas para descrever essa mesma dinâmica. Múltiplas crises operam de forma simultânea e interdependente, todas atravessadas por uma crise epistêmica subjacente que corrói os próprios mecanismos de compreensão e intervenção na realidade.
Essa leitura se evidencia quando diagnósticos cada vez mais claros se chocam com a inércia e com ações que caminham na direção oposta ao esperado. Instala-se, então, uma percepção difusa, mas bastante tangível, de que não é mais possível imaginar futuros razoáveis.
Quando as imagens de futuro perdem consistência, enfraquece também a capacidade de projetar trajetórias coletivas. A confiança nas instituições começa a erodir e a ideia de progresso deixa de orientar expectativas. O tempo se contrai e o que resta é uma forma contínua de gestão da sobrevivência.
Para amplos segmentos da população, as referências de estabilidade e prosperidade perdem lugar no imaginário coletivo. Condições que permitiram às gerações anteriores projetar trajetórias relativamente previsíveis, como acesso à moradia, segurança no trabalho e previsibilidade econômica, desapareceram. A ansiedade que emerge desse cenário reflete uma reconfiguração estrutural das condições de vida.
A crise climática parece dar materialidade a esse quadro.
Mais do que qualquer outro fenômeno contemporâneo, ela concentra a tensão entre o alarme e a inércia.
E aqui se instaura um paradoxo desconcertante. O sucesso da comunicação científica, ao tornar visíveis os riscos da emergência climática, contribuiu, em alguma medida, e involuntariamente, para a ampliação dessa sensação de perda de futuro.
Alertas cada vez mais precisos e urgentes produzem uma expectativa social de respostas rápidas e proporcionais. A realidade política e institucional revela, porém, uma dificuldade estrutural de ação. Nesse cenário, parcelas crescentes da população compreendem os riscos e reconhecem a gravidade das crises em curso. Essa consciência amplia a percepção de que os problemas centrais do nosso tempo ultrapassam a capacidade atual das sociedades de lidar com eles e que será necessário enfrentar o pior, seja lá o que isso signifique.
Nesse ambiente, a política tende a mobilizar afetos que se reorganizam em torno da proteção imediata. É nesse espaço que o conservadorismo político encontra espaço para se afirmar, possibilitando acolher, oportunisticamente, correntes negacionistas.
Negar a gravidade da crise climática, desacreditar instituições científicas ou reinterpretar fatos históricos é uma estratégia típica para sustentar a ficção de que o retorno a um contexto de normalidade perdida é possível. A disputa sobre evidências é absolutamente desnecessária. O terreno decisivo passa a ser o imaginário político do porvir.
Democratizar o acesso à informação e aperfeiçoar políticas públicas são, evidentemente, necessários, mas insuficientes diante da dimensão do que está em jogo. A crise que atravessamos possui uma dimensão ontológica que altera a forma como as pessoas percebem o tempo, a agência coletiva e a própria viabilidade de futuros diferentes do presente. A crença de que reformas graduais dentro do paradigma vigente poderiam sustentar algum tipo de futuro viável colapsou. Persistir nessa estratégia tende a reproduzir os mesmos impasses e retroalimentar todo o ciclo.
Nosso grande desafio é construir capacidade de imaginar e projetar outros arranjos possíveis de organização social, econômica e ecológica. Esse desafio exige abrir caminho para novos paradigmas que tornem pensáveis e habitáveis outros mundos. A ciência precisa participar ativamente desse esforço. Essa é a condição necessária à restituição do futuro como horizonte coletivo possível, o que implica fortalecer e fomentar processos educadores, formais, não formais e informais, orientados por uma perspectiva crítica, capazes de preparar a sociedade e, em especial, a juventude, para mitigar o aquecimento global e se adaptar aos extremos climáticos.
Sem novas imagens de futuro e populações capacitadas, o passado dos negacionistas continuará perigosamente vencendo eleições.
*Evandro A. Branco é pesquisador do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do INPE desde 2015 e atua na área das dimensões humanas e institucionais das mudanças ambientais globais.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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