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A importância de saber falar

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27.03.2026

Eva, Diogo e Ariana. Três nomes que saltaram para a ribalta, em Portugal, de um momento para o outro. Triângulo amoroso num reality show da TVI, protagonizam uma história de namoro e engano, que rivaliza, nas notícias, com o que a normalização informativa hierarquiza em relação à atualidade. Pouco depois das nove da noite, mais de um milhão de portugueses não disfarçam o interesse naquele trio e tomam partido. Há quem não perdoe a Diogo, há os que se atiram a Ariana, por ser a ‘outra’ (a presumível agente responsável pelo fim de um romance de cinco anos), há quem estranhe e critique a passividade de Eva, no meio de todo o processo. Indiferença é coisa a que não se assiste, por parte dos espetadores e dos que, nas redes sociais, se manifestam sobre as peripécias do caso.

Fustigados pelas más notícias que assolam as suas vidas, preocupados pelos efeitos da guerra no Médio Oriente, quando a da Ucrânia ainda está longe do fim, e a braços com problemas que se eternizam, como o preço das casas, as dificuldades do Serviço Nacional de Saúde, a falta de perspetivas para os jovens, os baixos salários e a inflação, os portugueses viram-se para uma história recheada de aspetos não distantes de realidades que o seu quotidiano identifica com facilidade e que não existem apenas no domínio da imaginação de autores de telenovelas. A transversalidade de públicos que observa o que se passa no espaço partilhado por Diogo, Eva e Ariana é impressionante, confirmando, numa observação imediata e linear, que a vida é feita de emoções e que as reações do ser humano acabam por ser simples de entender.

Estranhará, porventura, o leitor a incursão deste texto por uma questão ligada ao universo da Televisão e fora do que se convencionou designar de ‘assuntos sérios’. A verdade, porém, é que, perdoem-me detratores e discordantes, o episódio que relato despertou mais interesse nos portugueses, nos últimos dias, do que a maioria das matérias geradas pelo universo da política, por exemplo. É o que é.

O problema da generalidade dos protagonistas da política à portuguesa é o facto de ter dificuldade em perceber que, para conhecer o País, é preciso entendê-lo, saindo dos compêndios e colocando os pés fora dos corredores dos palácios e dos palacetes.

Vários exemplos poderiam ser aqui citados, com base em dados extraídos desta semana. Fico-me pelo caso do secretário-geral do PS e pela sua visita à Venezuela. Tenho dificuldade em encontrar motivos que justifiquem a premência da viagem e a utilidade da mesma. Dizer que as autoridades venezuelanas se comprometeram a «garantir a continuidade da proximidade e do apoio e de valorização da comunidade portuguesa» é um mergulho no vazio. São palavras que não servem para nada, ainda por cima quando está em causa um país altamente fragilizado por uma ditadura e que hoje estremece mal ouve falar no nome de Donald Trump.

José Luís Carneiro acedeu ao Poder no PS, sejamos realistas, por falta de alternativas. Afável e simpático, não é um líder que galvanize. Os socialistas sabem-no e veem-no como um secretário-geral de transição. As críticas internas de que foi alvo, por causa da visita ao país em que Nicolás Maduro reinou, revelam-se mais sérias e demolidoras do que as que o PSD formulou. Os socialistas vivem uma fase de fraca ou nenhuma mobilização interna, para além daquela a que as circunstâncias obrigam, e não parece previsível que o congresso do fim de semana traga alguma vacina que abale a apatia e redinamize um partido remetido para terceiro lugar, nas últimas eleições. Carneiro arrisca-se a ir de vitória em vitória interna até à derrota final. A História está repleta de exemplos destes. Basta surgir alguém com carisma, com ambição de poder e com a energia certa.

Valha a verdade que a conquista da liderança do PSD por Luís Montenegro também se verificou numa fase em que poucos apostariam na sua sobrevivência por muito tempo. Mas o caso dos sociais-democratas é outro. Certamente o abordaremos noutra ocasião.

Apenas uma nota final, ainda a propósito do desfasamento entre políticos e país real.

O Governo congratula-se – e legitimamente – com o facto de ter conseguido um superávit de 0,7 por cento em 2025. O anúncio revestiu-se de tudo o que, a meu ver, carece de profunda alteração. Em vez de falar para os portugueses, dirigiu-se, fundamentalmente, aos políticos, aos jornalistas e aos opinion makers. Os cidadãos comuns, esses, ficaram sem perceber o que ganham com isso.


© SOL