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As leituras

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18.02.2026

Apesar dos resultados das eleições presidenciais serem numericamente muito expressivos, ouvindo comentadores e políticos somos surpreendidos com uma miríade de leituras sobre o significado da escolha dos portugueses.

1. Pelo valor facial. Ganhou António José Seguro porque teve 3,5 milhões de votos e André Ventura 1,7 milhões. Ponto final, acabou-se. Agora a vida continua e vamos ao que na verdade interessa. Esta é a leitura preferida por Luís Montenegro, que gostaria que as consequências das eleições se tivessem esgotado com elas para poder continuar a governar ‘as usual’ e para que todos esquecêssemos a enorme derrota do candidato por si escolhido. 

2. A rejeição. Mais do que votos pela positiva em Seguro, os resultados mostram que uma fração grande do povo português não gosta de Ventura e acha o seu estilo extremista e em constante desafio às tradições e regras institucionais inadequado para um Presidente. É a interpretação de que ‘contra Ventura até o rato Mickey ganharia’. Esta leitura parece-me verdadeira, mas não deve fazer-nos esquecer que cerca de 400 mil portugueses que tinham votado na 1.ª volta noutros candidatos ‘moderados’ escolheram ‘não-rejeitar’ André Ventura, estimando-se, mesmo, que terá atraído um quarto dos votantes da AD. Convém não esquecer o adágio que à primeira vez estranha-se, mas depois entranha-se. 

3. As linhas vermelhas. A leitura anterior é totalmente negativa. Esta é semelhante, mas tem consequências políticas. Também se poderia chamar ‘saudades do bloco central’. Os cerca de 70% obtidos por António José Seguro provieram em grande parte de votantes AD e PS e tiveram como destinatário um político moderado e situado na ala direita dos socialistas (onde também se situa José Luís Carneiro). Por outro lado, continua a leitura, estes eleitores rejeitaram não somente a adequação do perfil de Ventura para a Presidência como também, mais fundamentalmente, o projeto político do Chega. As eleições terão constituído, assim, um apelo ao governo de Montenegro para governar ao centro, procurando acordos preferenciais com o PS. Esta é a leitura preferida por Carneiro, para quem as presidenciais poderiam ser um pé-de-cabra que permitiria forçar alguma influência na governação. Claro que esta leitura choca com o facto de estas terem sido ‘apenas’ umas eleições para Presidente da República, onde os assuntos mais candentes e fraturantes da ação legislativa e governativa estiveram ausentes. Nada garante que a maioria que elegeu Seguro sem manteria em torno da imigração ou leis laborais, por exemplo; suspeito que não. Ou seja, em termos de iniciativas políticas concretas a maioria que elegeu Seguro dissolveu-se com essa eleição.

4. «Sou o líder da direita». Esta é a narrativa de André Ventura, radicada no facto de ter derrotado na 1ª volta todos os outros candidatos não-socialistas. E, extrapolando linearmente a notável progressão que em sete anos o levou de político desconhecido a depositário de 1,7 milhões de votos, anuncia que está próximo o momento em que chefiará o governo do país. Claro que Ventura não acredita verdadeiramente nisto e sabe (ou teme) que este nível de votação poderá representar um ‘patamar de resistência’ que levará anos a ser vencido (se, de todo). A própria ideia de ser líder de uma área política que não consegue federar e cujo ‘povo’ maioritariamente votou em Seguro carece de credibilidade. Mas o seu resultado foi verdadeiramente extraordinário; com a sua narrativa hiperbólica André Ventura pretende condicionar Montenegro e, com isso, reforçar o poder negocial do Chega na agenda legislativa.

5. A esquerda vitoriosa. Os socialistas respiram de alívio, depois do soco recebido nas últimas legislativas. Esquecendo todas as resistências intestinas em apoiar Seguro, conseguiram eleger um dos seus, e têm expetativas que Belém possa ser um travão a iniciativas reformistas mais radicais desenhadas sem o seu consenso. Mas quem celebrou, como se de um golo marcado no último segundo do prolongamento se tratasse, foi o PCP. E esse golo foi simplesmente a esperança (garantia?) que o pacote laboral não passará.

Professor universitário


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