menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Na política não há certezas

8 0
20.02.2026

1. José Luís Carneiro recandidatou-se à liderança do PS. Vai ganhar à vontadinha. Merece. Tem cumprido com zelo, moderação e decidiu agora ser mais exigente com Montenegro. Nenhum dos camaradas que o detestam (em regra são os que também odeiam Seguro) o vai afrontar. Sabem ser inútil. Carneiro tem afinidades com Seguro, o que não significa cumplicidade. Vai ficar a mandar no Largo do Rato até às próximas legislativas. Em teoria, Portugal entrou num ciclo de estabilidade nas lideranças políticas. O Presidente eleito vai contribuir para tal, já que não é adepto da hipermediatização suscetível de interpretações dúbias. É antes um sábio gestor de silêncios (eventualmente o melhor dos últimos 50 anos). Nos seus quadrantes, Montenegro e Melo dominam a AD. Só terão problemas por via das falhas na ação governativa, intervenções judiciais ou bombas mediáticas. Apenas Passos faz comichão. No Bloco, José Manuel Pureza trouxe ponderação. Contrasta com a histeria extremista das mortáguas e flotilhas. No PCP, Paulo Raimundo estará. Mesmo que deixasse de estar, viria outro dizer o mesmo. O PC de hoje é pouco mais do que a cúpula da CGTP. Pode haver alguma agitação no Chega. Ventura não tem rival nem o lugar em causa. Vai multiplicar números políticos disruptivos para redes sociais e tvs. Mas tem de se legalizar. O Chega está ilegal face à lei dos partidos. Assim decretou o Tribunal Constitucional. A correção é um processo complexo. Pode voltar a trazer problemas se continuar a ser feito sem profissionalismo. Faltam dois partidos nesta análise. O Livre é um deles. Talvez, no intervalo de uns programas de televisão e outras atividades, Rui Tavares invente mais umas ‘democratisses’ estapafúrdias que ele próprio desrespeitará, mas que têm servido para cativar desiludidos do Bloco, fãs do Hamas e dos Ayatollahs. A Iniciativa Liberal é recente, mas já teve cinco líderes. Tem agora um supervisor a partir de Bruxelas. É mais um dos pais fundadores à americana Deram a Cotrim a autoridade de um programa dominical na SIC pequenina (a das notícias). Não lhe correu de feição porque o pivô decidiu dar uma incómoda prova de vida. Veremos se a IL evita mais uma luta interna tipo piratas do Astérix e o inevitável naufrágio. Resumindo: temos condições nacionais de estabilidade. O busílis é que sabemos que isso não quer dizer nada… 

2. O ministro da Reforma do Estado apareceu para proclamar «uma bazuca de simplificação, a fim de acelerar a reconstrução e apoio às vítimas dos temporais». Assegurou ir ser uma coisa “jamais vista” e que o essencial será feito num ano. Onde é que já ouvimos isto? Em todos os incêndios, cheias e acidentes. Será Matias mais um mero propagandista? O facto é que todos antecessores falharam. Agora, o problema é que Matias não parece ter percebido que a Reforma do Estado não tem a ver com questões conjunturais e urgentes. É, sim, uma terapia necessária para uma doença secular: a burocracia tentacular e incompetente. É esse cancro que Matias deve tratar e não o acidente por mais grave que tenha sido. Que se tenha visto, a criatura não fez praticamente nada desde que tomou posse, salvo uns saltinhos na Web Summit. E, no entanto, a grande Reforma do Estado tem sido o suposto cavalo de batalha de sucessivos governos. Desde logo os de Montenegro. No seu primeiro, nomeou um Secretário Geral do Governo. Tinha a gloriosa missão de aligeirar e racionalizar. O problema surgiu logo com o ordenado. O ungido era do Banco de Portugal. Custaria 15.905 euros/mês. Pulverizava a escala da administração pública. Escolheu-se então o ex-ministro Costa Neves, mais em conta. Este ‘agilizador’ teve direito a seis secretários-gerais adjuntos (seis!). Foi este coletivo que carimbou acriticamente a escandalosa renovação da Sport TV para o governo. No seu segundo Governo, Montenegro manteve os seus titulares. Acrescentou Matias e dois secretários de Estado. Um da Digitalização. Outro da Simplificação. Ambos munidos de chefes de gabinete e adjuntos. Não bastavam. Brindou-nos há dias com quatro consultores coordenadores da Reforma a 4 mil euros/peça. Um tem 25 anos e é irmão do chefe de gabinete do PM. Quando fizer um ponto de situação intermédio da Reforma, o ministro Gonçalo Matias terá ao seu redor, no mínimo, duas dezenas de ‘expertos’. Avaliarão também a performance dos 80 grupos de trabalho existentes. Talvez este lote possa explicar a razão pela qual a tesouraria das finanças de Paço de Arcos está encerrada para pagamentos, enquanto as de várias agências da CGD fecham às 12h30. Uma dica de borla: Matias e o seu séquito têm a oportunidade de ouro de falar com quem conhece o terreno. É um tal António José Seguro. Ele sabe o que é a burocracia, os seus métodos e tiranetes. Tem na família farmácias, é pequeno produtor de vinho e azeite que comercializa, tem alguns terrenos e desenvolveu na Beira Baixa um negócio de alojamento local com um comércio associado. Sendo ainda por cima professor universitário, terá certamente muito gosto em dar uma aula prática a sábios das alcatifas.

3. Na semana passada referiu-se a existência de 3901 freguesias. São mais! Concretamente 3259, dado o absurdo processo de desagregação. Tal torna mais ampla a vitória de Seguro, que só perdeu duas para Ventura e que, no fim de semana, ampliou a vantagem. Ultrapassou os três milhões e meio de votos. Mais do dobro do líder do Chega que, reconheça-se, fez um score assinalável.


© SOL