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A reunião de família do orçamento europeu

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03.03.2026

 cada sete anos, a família sentava-se à volta da mesa grande. Era a reunião do orçamento. Um ritual antigo.

À cabeceira sentava-se sempre a PAC. Era a mais velha. Tinha chegado quando a casa ainda lutava para se reerguer e o problema era garantir comida boa, barata e para todos.

Durante muito tempo, quase todo o dinheiro da família era para ela. Nos anos 70 e 80, do século passado, mais de 70% do orçamento comunitário ia para a agricultura.

“Fui eu que mantive esta casa de pé quando ainda mal tinha paredes”, lembrava, sem dramatismo. E ninguém contestava.

Com o tempo, a família cresceu.

Primeiro veio a Coesão, pragmática, pesada e de botas sujas de obra. Falava de regiões esquecidas, pontes por construir, aldeias a esvaziar e escolas sem aquecimento.

“Produzir é essencial, mas uma casa partida ao meio nunca funciona bem”, dizia ao mesmo tempo que espalhava mapas sobre a mesa,

E levou uma fatia crescente do orçamento para obras estruturais.

Depois apareceu o Ambiente, sempre aflito com secas e cheias e a queixar-se do frio e do calor.

“Esta casa está cada vez mais quente; o telhado já não isola e ninguém quer saber”, alertava sempre.

Falava do clima, da água, e de outros temas que mais ninguém percebia bem, como a biodiversidade, a energia limpa, e a neutralidade carbónica. Nunca pedia pouco, porque os problemas também não eram pequenos.

A seguir entrou a Inovação, cheia de brilho e “futuro”, de portátil na mão, a falar de investigação, de digitalização, de produtividade e da competitividade global. O discurso entusiasmava todos.

“Se esta família não investir em tecnologia, vai viver do passado”.

Propunha programas de dezenas de milhares de milhões como quem mostra catálogos de futuro. Passou a ser um dos membros mais influentes da família.

A Saúde chegou mais discreta… até deixar de o ser.

“Enquanto tudo corre bem, ignoram-me. Quando há crises, perguntam porque não investi mais cedo.”

Particularmente desde a pandemia, passou a ter lugar fixo à mesa.

A mesa estava cheia de causas nobres. Todos se achavam muito importantes, mas o dinheiro mantinha-se teimosamente limitado.

Hoje, passados muitos anos, as contas são claras. A PAC representa menos de 30%, a Coesão cerca de 30% e os outros membros da família ficam com cerca de 40%.

A PAC olhava para os números e sorria de lado. Ainda tinha alguma importância.

E então, a porta abriu-se. Entrou a Defesa, elegante, mas intimidante, de roupa impecável, passos confiantes e um discurso que ficava no ouvido. Instalou-se e trouxe a lógica da urgência existencial para a mesa. Falava baixo, mas os números gritavam.

“Durante anos fui esquecida. Mas agora a família percebeu que segurança não se improvisa, nem se negoceia”.

E falava sem pejo em centenas de milhares de milhões de euros na próxima década. Valores comparáveis às maiores políticas históricas da casa.

A Coesão engoliu em seco, mas sabia que ninguém tinha coragem de lhe fazer frente. O Ambiente fez contas à vida, mas já tinha garantido a sua parte. E a Inovação abriu mais uma folha de Excel, e mostrou que ali não se podia mexer. Inevitavelmente, os olhares foram parar à mais velha.

A PAC, que já tinha visto muita coisa, bateu suavemente com a mão na mesa:

“Vai ser mais uma prioridade absoluta financiada com cortes na minha parcela. Deixem-me adivinhar…eu continuo essencial…toda a gente tem que comer… e sempre que é preciso cá estou… mas a verdade é que já não sou prioritária nesta família…”.

Ao longo dos anos, a PAC não encolheu porque tenha falhado. Encolheu porque foi bem-sucedida. Encolheu porque a Europa multiplicou as suas urgências. Encolheu porque envelheceu e já é pouco “atraente”.

A Comissão Europeia, que estava ao fundo da sala, mas que era a gestora do património, sabia bem que o orçamento familiar ia passar a ser cada vez mais para as novas prioridades e que as políticas históricas teriam de pagar parte da fatura.

Pediu a palavra e disse a todos: “O orçamento familiar vai aumentar bastante, o que será importante para manter a família unida, mas há novas urgências e prioridades. Vamos ter de trabalhar mais em conjunto. Por exemplo, a PAC vai ter de se juntar à Coesão e olhar de forma mais integrada para o território”.

A reunião acabou, mas agendaram uma próxima reunião para breve.

A PAC saiu preocupada. Percebeu que a idade pesa e que há uma nova geração que já manda mais do que ela, e que os seus tempos de glória já não vão voltar.

Sabe que vai ter de lutar para não ficar esquecida, que tem de ajustar o discurso e que, para manter a atividade agrícola na família, terá de valorizar mais a sua importância.

A PAC sabe que só conseguirá continuar a ter uma voz à mesa se mudar. Mas, ao contrário do passado, as pessoas já não valorizam o que ela faz. A Europa, aparentemente, esqueceu-se que a produção de alimentos é também soberania alimentar e defesa, que a alimentação saudável é saúde, que as boas práticas agrícolas promovem o ambiente e que sem agricultura o território fica sem pessoas e é abandonado.

Mesmo percebendo que tem de passar a viver com menos recursos, a PAC continua a acreditar que é possível potenciar a produção europeia. A PAC sabe que é fundamental voltar a discutir as suas prioridades. Sabe que as mudanças irão obrigar a alterar muita coisa e a mexer com os legítimos interesses de muitos que dependem dela. Mas também sabe que este é o momento de o fazer, e que tem de ser rápido.


© Sapo