May the Force Be With You: quando as empresas escolhem o lado certo
Portugal está exausto. Cansado de tempestades que não dão tréguas, de cheias que destroem casas, negócios e rotinas, e de uma sensação persistente de fragilidade estrutural. Kristin, Leonardo, Marta – os nomes passam, o impacto fica. O país está num estado de grande desgaste e, nestes momentos, não há espaço para poupar esforços quando o que está em causa é ajudar quem perdeu quase tudo.
É precisamente aqui que importa dizer o óbvio – mas nem sempre dito: o papel das empresas faz a diferença. E, desta vez, fez mesmo.
Nos últimos dias, vimos empresas – Grandes, Médias e Pequenas! – a mobilizarem-se de forma concreta para apoiar as vítimas. Exemplos como a EDP que suspendeu faturação, apoiou clientes com painéis solares danificados e canalizou mais de 800 mil euros para medidas de mitigação; ou a Brisa que isentou portagens na região Centro, num esforço estimado até 500 mil euros, garantindo mobilidade numa altura em que deslocar-se era, para muitos, essencial. Também o setor bancário ou o segurador responderam com rapidez: processos acelerados, adiantamentos de indemnizações, equipas reforçadas no terreno e uma mobilização sem precedentes para responder a milhares de sinistros. Num país em que o seguro é, para muitas famílias, a última linha de proteção, este papel foi – e é – absolutamente crítico.
No terreno, a Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) reforçou de forma significativa a sua resposta humanitária junto das populações afetadas. Esta capacidade de atuação só foi possível graças a uma mobilização solidária alargada, que juntou o contributo do tecido empresarial nacional ao apoio de milhares de portugueses.
Entre os contributos, destaca-se o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, que permitiu a aquisição de lonas para proteção de habitações danificadas, a compra de uma viatura logística e equipamento essencial para limpeza e desobstrução de vias. A Fundação Ageas reforçou a resposta com apoio financeiro adicional para proteção de casas afetadas. A Galp assegurou o abastecimento de combustível às viaturas da CVP, garantindo a mobilidade contínua das equipas de emergência. A resposta em bens essenciais foi reforçada pela Missão Continente, fundamental no apoio a famílias desalojadas. A capacidade operacional no terreno contou ainda com viaturas disponibilizadas pela Santogal e pela Fly Rent-a-Car, e com contributos materiais da Auchan, Bricomarché, Worten e Zurich.
A este esforço juntaram-se ainda iniciativas solidárias promovidas por empresas como Brisa, Fnac, Darty, Sociedade Central de Cervejas, BP, Deloitte, Glovo, SIBS, Fundação Zurich, Tabaqueira, Fujitsu, Driscoll’s, entre muitas outras.
Este movimento coletivo revela um dado curioso: cerca de metade do valor total angariado pelo Fundo de Emergência da CVP teve origem no contributo das empresas. A outra metade veio de donativos individuais, o que diz muito sobre o país que somos. Mesmo quando têm pouco, os portugueses continuam a dar, a ajudar, a não virar a cara. Essa generosidade silenciosa – feita de pequenos valores somados – é tão poderosa quanto qualquer grande donativo corporativo.
Aqui reside uma distinção importante: em contexto de emergência, há um verdadeiro casamento entre empresas e ONGs. As agendas alinham-se, a urgência fala mais alto. A relação funciona porque o objetivo é claro, comum e imediato.
O desafio coloca-se antes e depois. Na normalidade. Quando não há sirenes nem urgência. Lembram-se daquele filme de 2009, He’s Just Not That Into You? Uma comédia romântica com Jennifer Aniston, Ben Affleck ou Scarlett Johansson, sobre relações que não funcionam porque simplesmente não há alinhamento/vontade. De certa forma, é uma metáfora honesta da relação histórica entre empresas e ONGs, fora das crises.
As empresas vivem da lógica da estratégia, da eficiência, do retorno, da reputação e do risco. As ONGs vivem do impacto direto, dos beneficiários que não podem esperar, da sobrevivência da causa. Quando se sentam à mesma mesa, num dia “normal”, a conversa é educada, mas raramente fluida. Não é falta de vontade – é falta de entendimento sobre o que cada um realmente precisa.
As crises recentes mostram que é possível fazer diferente. Que o impacto social pode – e deve – estar no centro da proposta de valor. Que apoiar não é filantropia avulsa, mas responsabilidade num país estruturalmente vulnerável. Ainda assim, os receios mantêm-se. As ONGs temem perder autonomia ou ver a causa diluída. As empresas temem falta de métricas, caos operacional ou narrativas que não cabem em relatórios trimestrais. Ambos os medos são legítimos. E ambos são limitadores.
As ONGs precisam aceitar que escala, métricas e estratégia não diminuem impacto – amplificam-no. As empresas precisam aceitar que nem tudo o que importa é imediatamente mensurável. A magia acontece quando ambos cedem do conforto e alinham objetivos sociais e estratégicos.
No fundo, talvez o problema seja apenas falta de compreensão. E, ao contrário do filme, aqui ainda há espaço para finais felizes. Que a força se mantenha do lado certo. Mesmo quando o País já não estiver debaixo de água.
