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Do grito ao ‘grit’: lazer sério, perseverança e bem-estar nas organizações

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09.03.2026

Mas, o grito, pode ser o ponto de partida para o grit: aquela força silenciosa e persistente que nos mantém firmes, que nos permite continuar a investir em objetivos significativos, mesmo quando os obstáculos se acumulam e os frutos tardam em aparecer. O grit transforma energia imediata em perseverança duradoura; faz do esforço um ato consciente de paixão e compromisso, não apenas de reação.

É nesta passagem, do impulso do grito ao grit, que se revela uma das lições mais subtis do bem-estar no trabalho. O grito sinaliza o desafio e a intensidade do momento; o grit constrói o caminho para atravessá-lo, fortalecendo não só o indivíduo, mas também as relações intergeracionais, a cooperação e a resiliência coletiva.

O grit faz-nos chegar ao fim do projeto; o grito mostra o fim da paciência

O grit, tal como conceptualizado por Angela Duckworth, vai muito além da simples força de vontade. É a paixão que persiste e a perseverança que se mantém ao longo do tempo, mesmo perante obstáculos, falhas ou rotinas desgastantes. Apresenta consistência ao longo do tempo e prediz resultados de longo prazo. É  um traço moldado pela experiência, pela socialização, pelo contexto cultural e pelas oportunidades de prática prolongada. Também é aquilo que sustenta projetos significativos e o compromisso profundo com aquilo que nos define. No contexto profissional, manifesta-se como resiliência, constância e engajamento, mesmo quando os resultados imediatos tardam em surgir.

É aqui que o conceito de Lazer Sério, desenvolvido por Robert Stebbins, se revela particularmente iluminador. As Atividades de Lazer Sério não são meros passatempos: implicam objetivos claros, exigem esforço, aprendizagem contínua, desenvolvimento de competências e persistência, de onde decorre grande bem-estar. Ao contrário do lazer casual, envolvem compromisso e disciplina, características que se cruzam intimamente com o grit.

Nas atividades de Lazer Sério, aprende-se a perseverar sem necessidade de pressão externa, a nutrir paixões que perduram, a lidar com erros e frustrações de forma segura e a construir uma narrativa pessoal que dá consistência e sentido. É nesse espaço que o grit também se treina, se fortalece e, como que um beneficio colateral, se expande para o domínio profissional.

O impacto desta ligação entre Lazer Sério e grit nas organizações é profundo. Colaboradores que cultivam atividades de Lazer Sério, portanto significativas, trazem consigo maior vitalidade, sentido de propósito e capacidade de autorregulação emocional. Estas atividades contribuem para a redução do risco de burnout, fortalecer o engagement sustentável e promover uma integração positiva entre vida profissional e pessoal. Organizações que reconhecem estas dimensões e que valorizam o tempo livre contribuem para equipas mais resilientes, motivadas e alinhadas com objetivos de longo prazo.

O efeito não se limita à própria pessoa: o Lazer Sério e o grit funcionam como ponte entre gerações. Profissionais mais experientes podem transmitir perseverança, mestria e sentido, servindo de modelos inspiradores. Os profissionais mais jovens, aprendem a valorizar o esforço gradual, o compromisso duradouro e a construção de competências ao longo do tempo. Esta dinâmica fortalece a coesão, promove o respeito mútuo e cria um ambiente de trabalho mais humano e sustentável.

Em síntese, o grit pode ser entendido como um traço de carácter estável, se bem que educável e cultivável, situado na intersecção entre disposições pessoais, valores, identidade e contexto. Por sua vez, o Lazer Sério contribui para o seu desenvolvimento ao proporcionar o cultivo de interesses duradouros, objetivos claros, práticas deliberadas, sentido de propósito e perseverança (mesmo com obstáculos), reforçando assim a manutenção de objetivos ao longo do tempo.


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