Teodoro e a morte no Tejo
O Professor Teodoro Ramalho caminhava junto ao Tejo. Lisboa estava molhada. Teodoro chegara à idade dos silêncios. Sereno. Um sentimento raro e vadio instalara-se nele de modo delirante.
Não chovia propriamente. A cidade conservava humidades eternas, noturnas, que subiam do rio e alojavam-se nas pedras, nos candeeiros, nas janelas, como se a cidade tivesse sido pescada da água. O Cais do Sodré quase deserto. Um táxi riscava a noite, indiferente ao rio. Ao longe, um barco avançava, silencioso e iluminado, levando passageiros para uma margem distante.
Foi numa dessas noites que o Tejo devolveu um homem. Teodoro achou isso deselegante.
António Valente, cinquenta e oito anos, era antiquário. Tinha uma pequena loja na Baixa, especializada em livros e manuscritos antigos. Conhecia colecionadores, bibliófilos e, sobretudo, viúvas que herdavam coisas que não sabiam avaliar.
Encontraram-no junto à água, completamente vestido, mas sem sapatos.
No bolso tinha um bilhete de elétrico, uma chave, um pequeno papel com uma frase rabiscada e um livro banal. No papel lia-se: O terceiro sino. A polícia considerou aquilo uma hora, uma igreja, um código ou uma excentricidade de morto. Teodoro........
