Pense em nós, Sr. Presidente
Faça-o, porque os portugueses são um povo triste que canta o fado, que tem como herói Cristiano Ronaldo e que agora, que se aproxima Julho, se prepara para rumar à Praia da Rocha com as bermudas cerimoniais do ano passado e mais uma dívida ao banco. Os portugueses merecem essa atenção de V. Excelência, merecem a dádiva do seu silêncio. Mesmo os mais apoucadinhos merecem-no, são eles que dão mais atenção aos seus discursos, mas estimariam que v. Excelência não os desafiasse demasiado ao raciocínio – porque lhes custa pensar e, ao fim, não chegando a nenhuma conclusão aproveitável, admitem com angústia que a culpa é deles. Até ao 5 de Outubro, essa improfícua data, ainda o Sr. Presidente tem muito tempo para reflectir. E, se no entretanto pedirem a V. Excelência que proceda à inauguração de um jardim-escola, ou de uma azinheira, não aceite. Pode não parecer mas é uma coisa de alguma responsabilidade. E se aceitar, o que fará pela delicadeza que todos lhe reconhecem, alegue que está com uma laringite e não vai poder discursar. É bom para todos e em particular é muito importante para debelar a laringite.
As declarações públicas que V. Excelência tem pronunciado, com destaque para o discurso com que no 10 de Junho dedicou aos abismados portugueses ou as que, na mesma linha, dirigiu aos jogadores de futebol da selecção, foram notáveis. Roçaram o nível de profundidade que todos reconhecem em V. Excelência, conseguiram aliar a denguice desarmante à inocuidade com tanta mestria que todos aplaudiram. E, só por isso, porque não continham a perigosa sonsice com que V. Excelência arrazoou sobre as bandeiras LGBT, merecem algum reconhecimento. Infelizmente, é pouco. Ou, vendo as coisas de outra maneira, é demais.
Nenhum português ignora quanto tem sido desanimadora a vida política de V. Excelência. Sabem isso os académicos e as despreocupadas avezinhas do céu, sabem-no melhor e com activa perfídia os seus camaradas socialistas, eles que à frente de todos o projectaram para o sítio onde agora está, umas vezes em Belém e outras nas Caldas. Fizeram-no porque desejavam a sua vacuidade, tão universal como uma ficha USB que entra em todo o lado e se presta, por isso, a qualquer torradeira disfarçada de cidadania. Para o levarem a bem usaram expressões polidas como desiderato e múnus, mas havia neles apenas o desígnio escondido de prolongarem o entremez de V. Excelência num lugar onde se visse melhor. E, apesar de uma certa improbabilidade, também para o desanimar de um dia prescindir da presidência do país para se habilitar ao secretariado do PS.
Pode parecer ao Senhor Presidente que são palavras um pouquinho duras e apressadas. Não são. Elas só querem o bem de V. Excelência. Seriam evitáveis se V. Excelência estivesse servido por um staff que o estimasse, que lhe desse bons conselhos sobre assuntos de política e o encaminhasse a direito em questões de bom-senso. Não parece o caso e, mais preocupante do que essa falha de casting, é a verificação de........
