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A 1.ª República e esta

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03.06.2026

1Neste 28 de Maio cumpriram-se 100 anos sobre o golpe militar que em 1926 pôs fim à 1.ª República. Não era expectável que a data fosse comemorada, pelo menos por todos. Os que actualmente se consideram democratas nunca festejariam a ascensão ao poder daqueles que consideram fascistas. E os que se consideram nacionalistas não se sentem suficientemente seguros para celebrar a data num país pejado de não-liberais propensos ao socialismo e à repressão sanitária. Porém, a data não está a ser esquecida por nenhum deles. Os primeiros, os que se consideram filhos e netos do 25 de Abril, lembram-na com medo e culpa – porque se sentem iguais, para pior, aos que minaram a 1.ª República ano a ano, durante 16 anos, e temem que a história se repita depois de eles próprios terem feito o mesmo durante os 52 que lhe foram dados pela história. Os segundos porque não gostariam de voltar ao mesmo, ainda que sabendo que o tempo não volta atrás e que qualquer estado novo terá que ser outra vez culpável e ainda mais espinhoso.

2Há uma altura, por finais do século XIX, em que se percebeu que a República seria proclamada em Portugal de modo inevitável. D. Carlos era um magnífico aguarelista, era entendido em barcos e habitantes do mar de Cascais, era uma boa pessoa, mas não estava dotado para enfrentar os graves problemas que as monarquias enfrentavam – sobretudo as pequenas monarquias. À entrada do século XX os movimentos de renovação das estruturas políticas fervilhavam por toda a Europa. Tinham terminado sem sucesso os esforços de reabilitação constitucional dos Anciens Régimes, as aspirações independentistas humilhavam as metrópoles, as grandes potências consolidavam-se à custa de expansionismos opressivos, as organizações operárias fortaleciam-se, os partidos republicanos/liberais apareciam e cresciam. A Comuna de Paris, apesar de selvaticamente reprimida antes de poder concretizar todos os seus disparates autogestionários, ou mais exactamente por causa disso, tinha espalhado por sobre as capitais do mundo o sonho iluminista de que o povo só se libertaria depois de enforcar o último rei com as tripas do último padre. Na altura, parecia aos ardorosos países do sul da Europa que a República era o regime que devia suceder às monarquias constitucionais, tão obrigatoriamente e denotando o mesmo bom gosto com que o tilbury tinha substituído a carroça.

A monarquia portuguesa era particularmente vulnerável. A Casa Real consumia-se em gastos excessivos consentidos pela bonomia distraída do rei, regeneradores e progressistas alternavam no poder uma equivalente incapacidade para resolver um único assunto da cousa pública, o ultimato tinha exposto a cobardia obrigatória do pequeno estado. A inevitabilidade da República era assunto encerrado nos círculos intelectuais de Lisboa. O facto de a República ter sido proclamada em 5 de Outubro de 1910 foi uma sorte. Calhou. Podia ter sido antes ou depois, e naquele dia podia ter acontecido uma carnificina. Ainda por sorte tudo se resumiu a umas poucas de mortes – a mais inadequada de todas a de Cândido dos Reis, um dos cabecilhas da revolução, confundido por uma sucessão de solecismos republicanos e que se matou por engano.

O entusiasmo e a consistência ideológica dos que andavam a prometer o fim da Monarquia desde há pelo menos 20 anos eram........

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