Terrorismo islâmico, ou os pirómanos no sótão
Sentado na sala de estar, fumando um cigarro, Gottlieb Biedermann lê o jornal. Uma vaga de incêndios criminosos tem vindo a assolar a cidade. Desconhecidos infiltram-se nas casas das pessoas e pegam-lhes fogo. “Outra vez os incendiários”, rosna. “Deviam ser todos enforcados. Já o disse e repito: deviam ser todos enforcados. É sempre a mesma história. Aparece alguém à porta a vender qualquer coisa, acaba por ser convidado a entrar. Arranja maneira de passar a noite. Oferecem-lhe um canto do sótão para dormir. Inacreditável…”
Poucos instantes depois, a criada anuncia-lhe que há um homem à porta. O desconhecido não pretende vender-lhe nada. Pede apenas, diz ela, um pouco de humanidade. Biedermann hesita. Vence, no entanto, a desconfiança inicial, deixa-o entrar e acolhe-o no sótão. No dia seguinte, a casa continua de pé. Afinal, Biedermann talvez tivesse exagerado. Talvez se tivesse deixado levar pelo preconceito. A casa continua de pé. Dias depois, chega um segundo desconhecido. Os dois homens, Schmitz e Eisenring, começam a carregar bidões para o sótão. Um dos bidões cai pelas escadas, deixando escapar um cheiro intenso a gasolina. Os dois homens, de resto, falam do fogo com desconcertante franqueza. Um deles chega mesmo a dizer que vão lançar fogo à cidade e que aguardam apenas o vento certo.
Biedermann, no entanto, continua focado no essencial: vencer o seu preconceito e encontrar explicações, por mais extravagantes que sejam, para aquilo que os seus olhos estão a ver. Afinal, insiste, a casa continua de pé. Apesar dos desconhecidos, apesar dos comportamentos, apesar das confissões, apesar dos bidões, apesar do cheiro – apesar, em suma, da evidência –, a casa continua de pé. Não faria sentido, argumenta consigo mesmo, aqueles dois indivíduos incendiarem a casa onde eles próprios vivem. Além disso, usemos a lógica: se realmente fossem incendiários, não o diriam tão abertamente, ainda por cima ao seu hospedeiro. Cada novo indício – dos bidões às confissões, passando pelos odores – reforça precisamente a conclusão contrária à evidência: nada há a temer; nada há, sobretudo, a julgar. A casa continua de pé. Quando os dois homens pedem fósforos, é o próprio Biedermann, vencendo finalmente o supremo preconceito piromanofóbico, quem lhos dá. No dia seguinte, a casa já não continuava de pé.
A ironia de Max Frisch nesta sua peça estreada em 1953, Os Incendiários, é especialmente cruel porque os pirómanos, a quem Biedermann começa por exigir nada menos do que a forca quando está a ler o jornal sobre a vaga de incêndios criminosos, nunca escondem verdadeiramente quem são e o que planeiam. O espectador sabe-o desde o primeiro minuto. O próprio Biedermann o sabe. Começara justamente, aliás, por descrever com exactidão o método dos incendiários. O drama da peça nunca reside, pois, na astúcia dos malfeitores, mas na incapacidade de Biedermann em acreditar naquilo que os seus olhos estão a ver. Como escreveu o poeta francês Charles Péguy: “É preciso sempre dizer o que se está a ver. Sobretudo é preciso sempre, o que é mais difícil, ver o que se está a ver”.
A peça de Frisch, apesar do título, não é, pois, sobre os incendiários, mas sobre Biedermann. Sobre os Biedermann do seu tempo, cujo nome traduzido significaria “homem respeitável”, portanto o “homem de bem” (a tradução francesa optou, significativamente, por Monsieur Bonhomme). Não é a astúcia dos incendiários (nem sequer particularmente competente) que interessa a Frisch, mas a psicologia do homem respeitável que lhes abre a porta, os acolhe em sua casa e, por fim, lhes fornece os próprios fósforos. A peça expõe, na verdade, uma disposição moral e intelectual que atravessa ciclicamente a história do Ocidente: a incapacidade de distinguir........
