O mar já não existe
Se há frase de que não gosto na Bíblia é esta do Apocalipse em relação ao futuro: “e o mar já não existe”. A minha história com o mar é complicada. Ao crescer não tinha grandes alternativas ao que era o normal para as férias de Verão de uma família portuguesa nos anos 80: muita praia. Podia ser a mais próxima, como Carcavelos ou a Costa da Caparica, ou a mais distante, como o Algarve ou o litoral alentejano. Como a Sara, a minha irmã gémea, era mais atlética do que eu (no fundo, o rapaz que o meu pai nunca teve), na praia era um miúdo enjoado, sem a coragem de furar pelas ondas do mar a dentro como ela fazia com o meu pai (merecendo até o apito censor dos nadadores-salvadores). Quando cheguei à adolescência, a única praia que tolerava era a que ia com os meus amigos. Ia à praia pelos outros, não por mim.
Quando comecei a namorar com a Ana Rute, ela era o contrário: adorava a praia e ficava preta. Eu, até depois de casados, tolerava mas sempre a resmungar, a estragar-lhe a fruição natural do tempo e do espaço. Até que tudo mudou aí por volta dos meus trinta e pouco, sobretudo à custa da música. Na altura bandas como os Vampire Weekend faziam um rock viçoso mas com imaginário veraneante. Mais: outras........
