Recuperar a empatia
Começo com uma provocação, e peço que me leiam até ao fim antes de me arrumarem numa qualquer trincheira ideológica. É possível ter empatia pelos cidadãos de Ceuta, que viram a sua cidade perder o equilíbrio, com gente a galgar fronteiras de forma desordenada, com o caos instalado num ápice, e com a sensação de que a segurança que dávamos por adquirida deixou de existir?
Não consigo imaginar o que deve ser a nossa rua deixar de nos pertencer, e sei que é nessa segurança miúda, quotidiana, que assenta a coesão de qualquer comunidade.
E é possível, no mesmo instante e com a mesma intensidade, ter empatia por quem atravessou o deserto e o mar, dormiu ao relento, foi roubado, espancado, vendido, até chegar a um muro onde não é bem-vindo, fugindo das mais diversas perseguições, muitas vezes apenas para continuar vivo?
E tenho muita dificuldade em aceitar que, em 2026, se continue a estigmatizar pessoas e a perder a noção do que é o sofrimento numa parte do mundo que ainda vive segundo regras pré-hobbesianas, onde não há Estado que garanta nada a ninguém.
Há em tudo isto um dilema complicado, difícil de reconciliar, e é nesta fase que a maior parte das pessoas desliga, porque pôr sob tensão empatias tão contraditórias é exigente, obriga a que a nossa cabeça e o nosso coração aguentem a complexidade sem a barricar; e a sociedade em que vivemos quase já não tem lugar para quem se recusa a escolher trincheiras.
As democracias foram, durante décadas, o espaço onde estas coisas se reconciliavam, o centro do contrato social, a garantia da lei e da ordem, o elevador da mobilidade, o espaço onde as diferenças se negociavam. Estão, porém, a deixar de o ser a um ritmo........
