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Os riscos da IA para os media

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28.04.2026

Desde que Gutenberg introduziu a impressão nas suas oficinas de Mainz, há cerca de seis séculos, a palavra escrita foi ganhando espaço até se afirmar como a principal fonte de conhecimento da vida pública moderna. É graças à tecnologia, primeiro, com a impressão, mais tarde, com o rádio e a televisão, que o jornalismo emerge, enquanto estrutura de mediação. A imprensa escrita, a rádio e a televisão captaram, sucessivamente, parcelas crescentes da atenção coletiva, sendo determinantes na forma como as sociedades modernas e pós-modernas organizaram o próprio pensamento. Foi no espaço mediado pela imprensa escrita que o Iluminismo ganhou corpo, que as revoluções liberais promoveram as suas linguagens e que as grandes disputas ideológicas dos séculos XIX e XX se tornaram visíveis e discutíveis. Em páginas de jornal escreveram pensadores tão relevantes como Tocqueville, Marx, Eça de Queirós, Gramsci, Orwell, Arendt, Camus, Sartre, Merleau-Ponty, Raymond Aron, Foucault, Eduardo Lourenço, Saramago ou Pulido Valente – e não haveria espaço nesta coluna para incluir todos os grandes dos últimos séculos que ganharam notoriedade na imprensa. A crónica e o ensaio jornalístico foram, durante séculos, a forma mais viva do pensamento público, e o jornal o lugar onde a inteligência se confrontou com o seu tempo, constituindo o terreno comum para a afirmação do pluralismo (mesmo, paradoxalmente, na clandestinidade, nas sociedades não democráticas).

A irrupção das redes sociais rompeu este equilíbrio. Importa referir que a perda gradual da relevância dos media ditos “tradicionais” tem, na sua base, uma raiz tecnológica, mas não apenas. Ela radica, sobretudo, a partir da revolução tecnológica, numa mudança significativa de hábitos que ataca o principal sustentáculo do jornalismo: a atenção. Ora, com a perda da atenção, foi-se boa parte das receitas que sustentavam o ecossistema mediático e da “capacidade de mediação”, ou seja, do espaço onde, outrora, os media........

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