menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Negri “reloaded”

35 0
27.10.2026

Há pouco mais de um ano escrevi aqui que a esquerda estava a perder a gramática, que lhe faltava um vocabulário para nomear o que dói e uma sintaxe para ordenar prioridades, e que o vazio deixado pelo esgotamento das causas identitárias seria ocupado por quem soubesse falar a língua das redes. À falta de melhor discurso, a esquerda tentou capturar um problema real e complexo – o da habitação –com tendas nas praças, assembleias noturnas, panos pretos nas varandas, palavras de ordem e, sobretudo, um dispositivo narrativo inteiro, com décadas de uso, desempoeirado em três semanas e posto a funcionar como se tivesse sido escrito ontem. A esquerda, incapaz de criar narrativas pensadas para os tempos de hoje, foi reciclar as velhas imagéticas do já falecido Toni Negri.

Convém dizer quem foi, porque a memória é curta e o nome já diz pouco a quase todos. Negri foi, a partir dos anos sessenta, o teórico mais influente do operaísmo italiano, a corrente que deslocou o olhar da fábrica para toda a sociedade e proclamou que o operário havia saído da linha de montagem para se tornar “operário social”. Todos são potencialmente oprimidos, no sentido marxista, toda a gente, em todo o lado, a produzir para o capital sem o saber, de modo que a luta de classes passava a poder travar-se em qualquer esquina. Foi o teórico da recusa do trabalho e da “autonomia” que nos anos setenta encheu as ruas de Bolonha e de Roma; acusado em 1979 de ser o cérebro das “Brigate Rosse” e do sequestro de Aldo Moro, absolvido dessa acusação e condenado por associação subversiva e bando armado, eleito deputado para sair da prisão e fugido para Paris quando o Parlamento lhe levantou a imunidade, regressou em 1997 para cumprir o resto da pena. Quando veio a Portugal em 2005, escrevi três textos a chamar-lhe camaleão do marxismo, porque a sua vida inteira foi a reinvenção do mesmo, com roupagem nova de cada vez que a anterior se gastava. Morreu em dezembro de 2023, com noventa anos, celebrado como filósofo por quem já não se lembrava do resto.

Em 2000, com a obra “Império”, escrita com Michael Hardt, e a sua continuação de 2004, “Multidão”. Negri veio defender que a soberania estava em transferência dos Estados-nação para uma entidade descentrada, sem rosto nem morada, o Império, forma acabada do capitalismo globalizado; ao Império deveria opor-se a multidão, feita de singularidades que sem um sentido de classe homogéneo, passaram a produzir em rede, um trabalho imaterial, numa metrópole inteira eu substituía a ideia tradicional........

© Observador