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Os preços sobem, o Estado sorri e o país paga

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10.04.2026

Há uma pergunta que já não cabe no silêncio: afinal, o que vem primeiro: comer ou meter combustível? Para milhares de famílias portuguesas, esta já não é uma reflexão. É uma escolha diária. Dura. Injusta. E cada vez mais frequente.

Os preços dos combustíveis disparam sem travão. O cabaz alimentar transforma-se num exercício de sobrevivência. E a explicação oficial chega sempre rápida e pronta: é a guerra. A guerra explica tudo. A guerra justifica tudo.

A guerra serve, aparentemente, para tudo. Mas há uma pergunta que fica por responder: se a culpa é sempre externa, porque é que a resposta continua a ser interna… e sempre paga pelos mesmos?

Enquanto se aponta para o conflito internacional, evita-se olhar para dentro. Para a carga fiscal. Para o peso dos impostos indiretos. Para as decisões — ou a falta delas. E, no meio deste cenário, há uma realidade que se impõe: enquanto o custo de vida sobe, a carga fiscal mantém-se intacta — e a receita do Estado acompanha essa subida. Porque quando os preços aumentam, aumenta também o valor cobrado em impostos indiretos. Não é perceção. É matemática fiscal.

E, ainda assim, a resposta política permanece tímida. Metade do preço dos combustíveis continua a ser imposto. O IVA sobre produtos alimentares regressou após medidas temporárias. E o Governo insiste em respostas pontuais, calibradas mais para o equilíbrio orçamental do que para o alívio imediato das famílias.

Apresentam-se medidas. Pequenas. Temporárias. Técnicas. Tão técnicas que, por vezes, parecem desenhadas para não se sentirem. É a política do “ajuste fino”: mexe-se pouco, anuncia-se muito — e espera-se que resulte. Mas a realidade não espera.

Há famílias a fazer contas ao litro. Há trabalhadores a ponderar se compensa sair de casa para trabalhar. Há carrinhos de supermercado cada vez mais vazios — não por escolha, mas por necessidade. E o problema não está apenas nos preços. Está na ausência de resposta estrutural. Onde está a revisão efetiva da carga fiscal sobre os combustíveis? Onde está uma política consistente para proteger o poder de compra? Onde está a urgência? Porque isto já não é apenas uma questão económica. É uma questão de dignidade. Não é normal que trabalhar não chegue. Não é normal que abastecer um carro seja um luxo. Não é normal que fazer compras implique abdicar do essencial. E, sobretudo, não é aceitável que, perante este cenário, a ação política se limite a gerir o problema, em vez de o enfrentar.

Estamos a chegar a um ponto perigoso. Um ponto em que a pergunta deixa de ser retórica: ou comemos, ou pagamos as contas? ou trabalhamos, ou conseguimos lá chegar? Quando um país chega aqui, já não está apenas em crise.

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