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Eutanásia - o trono vazio

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Das várias formas de olhar a eutanásia, há uma forma de olhar que a maioria dos participantes no debate evita. Evita porque é mais incómoda do que discutir sofrimento ou autonomia. Não é uma questão sobre o que fazer com um doente terminal. É antes uma questão sobre o que uma sociedade aceita como o seu bem supremo, e sobre o que se põe no seu lugar quando esse bem supremo é destronado. Como a História ensina com alguma insistência, tronos vazios raramente ficam vazios por muito tempo.

Até aqui, a vida humana funcionava como referente moral último: o ponto a partir do qual todos os outros valores eram medidos, e não o inverso. Proibia-se matar não porque a vítima preferisse viver (podia perfeitamente não preferir; há gente que prefere todo o tipo de coisas duvidosas, e nem todas envolvem morrer). Proibia-se porque a vida, enquanto tal, estava fora do alcance da preferência. Era o chão sobre o qual se jogava, não uma peça em jogo. Ninguém aposta o tabuleiro, por muito convencido que esteja da sua jogada. A vida era o que fundamentava tudo o resto.

A eutanásia inverte isto, e fá-lo com uma elegância quase administrativa. O seu princípio, despido da linguagem de compaixão e empatia que o embrulha com papel de embrulho fino e colorido, é simples: se o indivíduo quer acabar com a vida, acabemos com a vida do indivíduo. Aqui a vida deixa de ser o bem supremo e passa a ser uma variável subordinada à preferência de quem a possui (isto da “vida que se possui” também tem muito que se diga), uma espécie de subscrição de uma plataforma de streaming que se cancela quando apetece. Não se pergunta mais “isto é permitido, dada a inviolabilidade da vida?”. Pergunta-se antes “isto é desejado, dada a soberania da preferência?”. O trono que a vida ocupava ficou vazio, e quem se sentou nele, sem cerimónia de coroação nem debate sobre a legitimidade da sucessão, foi a vontade individual. Uma sucessão sem funeral de Estado nem cobertura televisiva, o que é notável, dado tratar-se da morte do próprio conceito de limite. Recorrendo à força do Estado, “as minhas preferências” ocuparam o trono que anteriormente era ocupado pela vida.

O problema é que ninguém, a começar pelos próprios defensores da eutanásia,........

© Observador