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Descolonizar o Aeroporto

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Há dez anos, sem a maçada de um debate público ou a auscultação da cidade, um governo derrotado em eleições e arranjado em putsch parlamentar rebaptizou o mais importante aeroporto do país. Projectada e inaugurada sob Salazar, a Portela virou então altar da religião oficial do regime: o anti-fascismo de opereta. Fina ironia: para mártir anti-fascista e novo patrono do aeroporto, António Costa convocou Humberto Delgado, admirador ardente, em tempos, de Hitler e Mussolini.

Esta tolice enche as medidas do regime, mas é indigna da cidade — e do país. Quando os povos se levam a sério, o habitual é que as principais infraestruturas honrem individualidades de impacto e reconhecimento globais — não pequeninas notas de rodapé ou actores secundários, oriundos de bulhas políticas intestinas e sem impacto além-fronteiras. Assim, Paris tem Charles de Gaulle, herói da Resistência e figura centralíssima da vida mundial ao longo de décadas; Déli tem Indira Gandhi. O Rio tem Santos Dumont, pioneiro da aviação. Budapeste tem Liszt. Ora, não há pessoa minimamente lida que ignore quem foi Indira, de Gaulle, Dumont ou Liszt. É diferente com Humberto: passe-se Vilar Formoso e ninguém, nem o mais lusófilo dos lusófilos, saberá dizer-nos se a personagem eminente foi líder político, chef de cozinha ou decorador de interiores.

É certo, reconhecimento não é mérito: a história da espécie humana está repleta de figuras excepcionais a quem é negada a justa valorização. Não é o caso de Humberto Delgado. General sem conquistas nem actos de heroísmo em........

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