Virtude hipócrita e suicida
Na sexta-feira, 25 de setembro de 2026, o litro de gasóleo simples custava em média 2,221 euros em Portugal. É o gasóleo mais caro de sempre, e subiu mais de 50 cêntimos desde que os Estados Unidos e Israel entraram em guerra com o Irão. Desses 2,221 euros, cerca de 84 cêntimos são impostos: o ISP, a taxa de carbono e o IVA de 23% que incide sobre tudo, impostos incluídos. O Governo baixa o ISP uns cêntimos de cada vez que o IVA sobe com o preço, para manter a receita constante, e chama a isso desconto.
É na bomba que os portugueses sentem a energia, e por isso começo aqui. Mas o preço que decide onde ficam as fábricas não é o da gasolina. É o da eletricidade e o do gás, e esses contam uma história que a bomba só sugere. No sábado, 26 de setembro, um megawatt-hora de eletricidade custava 28 euros no norte da Suécia e 190 na Sicília; Portugal e Espanha pagavam 131. São preços dentro daquilo a que Bruxelas, com o conhecido humor europeu, chama um mercado único. No Texas, a indústria pagou no primeiro semestre do ano passado o equivalente a 57 dólares por megawatt-hora, contra 176 na Alemanha. O número sueco diz o que a Europa podia ter. O siciliano diz o que escolheu. O texano diz para onde vão as fábricas.
Quero fazer três argumentos e depois uma lista. Os argumentos: que a energia barata não é um fator de produção entre outros, é a condição da prosperidade; que a política energética europeia das últimas duas décadas foi uma virtude hipócrita e suicida, hipócrita porque não mudou a trajetória das emissões do mundo, limitou-se a importar as que deixou de produzir, e suicida porque destruiu a indústria do continente; e que a Europa vai precisar de petróleo, gás e, durante mais tempo do que gosta de admitir, de carvão, e está sentada em cima de reservas que decidiu, por lei, não conhecer. A lista é o que fazer, na Europa e em Portugal.
A energia é a economia
Cada salto do nível de vida desde 1800 foi um salto da energia útil por pessoa. As economias ricas aprenderam a fazer mais com cada quilowatt-hora, e a intensidade energética do PIB cai há cinquenta anos; mas cai a partir de um patamar que só existe porque a energia foi barata primeiro. Antes do carvão, uma economia era a soma de músculos, animais, vento e água a cair, e crescia ao ritmo da população. O carvão transformou calor em movimento e movimento em bens, e pela primeira vez a produção por pessoa subiu durante um século sem parar. O petróleo repetiu o feito nos transportes, a eletricidade em tudo o resto, e de cada vez aconteceu a mesma coisa: os sítios onde a energia era mais barata tornaram-se os sítios onde se faziam as coisas, e os sítios onde se faziam as coisas ficaram ricos.
O mecanismo cabe num parágrafo. Uma fábrica é uma máquina que converte energia em valor. A margem é a diferença entre o preço a que vende e o custo do que compra, e no aço, no alumínio, na química, no vidro, no cimento, no papel e nos adubos, a maior compra depois da matéria-prima é a energia. Uma diferença de 50% no preço da eletricidade ou do gás não é uma desvantagem competitiva a gerir. É a margem inteira, e mais ainda. Quando a diferença dura uma década, a fábrica não se adapta. Muda-se. E leva consigo os engenheiros, os fornecedores, os aprendizes, a base fiscal e a fábrica seguinte, que deixa de se construir ao lado da anterior.
Os Estados Unidos fizeram esta experiência ao contrário nos últimos quinze anos. O xisto deu à indústria americana gás a uma fração do preço europeu, e as fábricas de química e de adubos que a Europa levou um século a construir foram reconstruídas na costa do Golfo do México. Ninguém no Louisiana aprovou uma lei para as atrair. O preço tratou disso.
A ronda seguinte está a decorrer agora, e o produto é inteligência. Os centros de dados são a indústria mais intensiva em energia que alguma vez se construiu, medida pelo valor do que produzem por metro quadrado, e escolhem onde se instalam pelo preço e pela fiabilidade do megawatt-hora com a mesma indiferença ao sentimento de uma siderurgia.
Em 2025, os preços da eletricidade para a indústria intensiva em energia na União Europeia mantiveram-se, em média, mais do dobro dos americanos e quase 50% acima dos chineses, e o gás industrial custou quatro vezes o americano, segundo a própria Comissão. A Europa paga o prémio do gás liquefeito que importa.
A indústria fez o que a indústria faz. A produção da indústria intensiva em energia na Alemanha caiu 15% entre fevereiro de 2022 e março de 2026, e a química europeia produz hoje 17% menos do que antes da crise, sem sinal de recuperação. Em toda a União, o consumo de eletricidade caiu para níveis de há duas décadas. No aço, os encerramentos, os projetos de descarbonização abandonados e os empregos perdidos contam-se às dezenas de milhar. Uma queda do consumo de eletricidade é normalmente sinal de recessão. Na Europa é agora política a funcionar como foi desenhada.
A política europeia tem cinco camadas. Um imposto sobre o carbono, a que se chama preço, entre 60 e 90 euros por tonelada, que encarece cada megawatt-hora produzido a gás ou a carvão. Saída do nuclear no país que ancorava a rede continental: a Alemanha desligou os últimos três reatores em abril de 2023 e, apesar do preço do que os substituiu, não voltou atrás. Proibição de procurar petróleo e gás em casa, em França, na Alemanha, em Espanha, na Irlanda, na Dinamarca e em Portugal. Substituição do gás russo por gás liquefeito comprado ao preço do mercado mundial, de modo que a Europa importa agora a sua segurança energética por navio. E uma rede que nunca foi construída e interligada para transportar o que os painéis produzem, de modo que na mesma tarde a eletricidade sueca é quase gratuita e a siciliana é das mais caras do mundo.
Desde a primavera, o encerramento efetivo do Estreito de Ormuz devido à guerra com o Irão fez disparar os preços da energia e expôs outra vez as vulnerabilidades da Europa. O gás no mercado holandês subiu em março ao nível mensal mais alto em mais de três anos. Com as exportações do Qatar interrompidas, os Estados Unidos deverão ultrapassar a Noruega como maior fornecedor de gás da Europa este ano e podem chegar a 80% das importações europeias de gás liquefeito em 2028, sendo o gás americano, em média, o mais caro que a Europa compra. E as importações de gás liquefeito russo bateram um recorde trimestral nos primeiros três meses de 2026; a Rússia continua a ser o segundo fornecedor. Quatro anos depois da Ucrânia, a Europa compra mais gás russo por navio e paga preços do Texas pelo resto. Em maio, os ministros da Energia da União preparavam-se para discutir a produção doméstica de gás em resposta ao aperto do Médio Oriente. Antes tarde do que nunca. Vinte anos tarde.
A virtude hipócrita e suicida
A defesa de tudo isto é que é o preço de salvar o clima. Olhemos então para o clima.
As emissões mundiais de CO2 de combustíveis fósseis subiram em 2025 para um recorde de 38 mil milhões de toneladas. A União Europeia representa 6% delas. Desde 2015 a União é importadora líquida de CO2: as emissões incorporadas no que importa excedem as incorporadas no que exporta, e medidas pelo consumo as emissões europeias são 9% do total mundial, para 6% da população. A China é o maior exportador de emissões para a União. As emissões medidas pelo consumo também caíram, menos do que as medidas pela produção; a hipocrisia não está em não se ter feito nada, está em contar como mérito próprio o que passou a ser emitido por outros. E a escala: a União cortou cerca de 1,3 mil milhões de toneladas anuais desde 1990; o mundo acrescentou mais de quinze mil milhões.
Leiam-se estes números juntos. O aço, os adubos, o alumínio e a química que a Europa deixou de fazer continuam a fazer-se, nas mesmas ou em maiores quantidades, com o mesmo ou mais carbono, em Ningbo em vez de Duisburgo e em Tangshan em vez de Taranto. O operário europeu que os fazia está desempregado; o consumidor europeu continua a comprá-los; a atmosfera não distingue. É isto que a fuga de carbono significa na prática: um continente que exporta as fábricas e importa o fumo, e se congratula por estar a ensinar o mundo a comportar-se.
Daí o adjetivo duplo. Hipócrita, porque as emissões que a Europa se recusa a produzir são as mesmas que compra, embaladas em produtos, a países que as produzem com carvão. Suicida, porque a política matou a indústria que sustentava a classe média industrial da Europa, de Duisburgo a Taranto e de Katowice a Sines, e continua a matá-la a cada........
