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Plantar os plantadores

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10.08.2026

Em agosto de 1578, um rei de vinte e quatro anos entrou em Marrocos à frente da nobreza portuguesa e conseguiu que a maior parte dela morresse numa tarde. O corpo dele nunca foi encontrado.

Dois anos depois, Portugal tinha perdido a independência. E dessa catástrofe nasceu o mito mais persistente da nossa história: o de que D. Sebastião não morrera, que era o Encoberto, e que voltaria numa manhã de nevoeiro para restaurar a grandeza do país.

Quatro séculos e meio depois, continuamos à espera.

Chamamos-lhe Sebastianismo, e há muito que deixou de ser sobre um rei. É a convicção de que a salvação chega de fora: do nevoeiro, de Bruxelas, de um investidor estrangeiro, de um governo diferente, de alguém que ainda não apareceu. É a crença de que aquilo por que esperamos é uma salvação.

A pergunta que quase ninguém faz

Comecemos por afastar a explicação mais confortável, que é também a mais falsa: a de que Portugal não tem gente à altura.

Tem. Produz, com uma regularidade que devia ser motivo de orgulho e é motivo de perplexidade, pessoas de primeira linha em quase tudo. E depois exporta-as. Não uma vez, não numa geração má, mas sistematicamente, século após século, com uma constância que já não se pode atribuir ao azar.

Portanto a pergunta certa não é onde estão os nossos craques. Sabemos onde estão. A pergunta é outra, e é bastante mais desconfortável: o que é que falta aqui, que existe noutros sítios, e que faz com que uma pessoa capaz de construir algo escolha construí-lo a três mil quilómetros de casa?

Não é dinheiro. Não é, garantidamente, falta de diagnósticos: ninguém no mundo escreveu mais sobre a sua própria decadência do que nós.

A resposta não é uma pessoa, não é um plano nacional, é uma resposta que já a tivemos nas mãos, há quinhentos anos, numa ponta do Algarve.

Quantos anos leva uma ida à Lua

Sempre que um país leva o futuro a sério, alguém se levanta e exige um moonshot: um grande salto que muda tudo. É Sebastianismo de bata branca. E entende mal até o caso que venera.

Em setembro de 1962, Kennedy discursou na Universidade Rice e escolheu ir à Lua. Lembramo-nos daquele discurso como o princípio de uma coisa. Não foi. Foi o meio, a parte visível de um processo que tinha começado muito antes.

O princípio foi um memorando, escrito dezassete anos antes, por um engenheiro chamado Vannevar Bush. Chamava-se Science, the Endless Frontier, e a partir dele os Estados Unidos construíram em silêncio, sem saber o que daria, uma máquina de produzir conhecimento: as agências de financiamento, os contratos de investigação com as universidades, a ligação permanente entre laboratório e indústria.

Dezasseis anos com essa máquina a trabalhar no escuro. Depois, o discurso. Depois, mais oito anos, e então sim, finalmente uma bota no pó lunar.

Vinte e quatro anos entre a plantação e a colheita. A história arrumou tudo debaixo dos oito últimos, que é o que a história costuma fazer.

Há um provérbio alentejano que já sabia isto muito antes de existir NASA: quem planta um sobreiro, planta para os netos. Não é uma metáfora, é uma instrução agrícola, e vale a pena ser preciso sobre ela. Um sobreiro só se descortiça por volta dos vinte e cinco anos, e essa primeira cortiça, a desbóia, é grosseira e quase não vale nada. Só ao terceiro descortiçamento, perto dos quarenta anos, é que a árvore dá cortiça que preste. Quem a planta estará velho, ou morto, antes de ela pagar.

Ponham agora os dois prazos lado a lado. A máquina de investigação americana deu a primeira cortiça útil aos vinte e quatro anos. O sobreiro dá aos vinte e cinco.

Um moonshot não é uma decisão. É uma colheita. O discurso é o som que uma colheita faz. Exigir um moonshot a um país que nunca construiu a máquina é exigir cortiça a um montado que ninguém plantou, e quando nada aparece conclui-se que faltam craques, e volta-se para a janela, à espera do Encoberto.

Por isso a pergunta útil nunca é qual é a nossa Lua. Mas antes: quais são as nossas árvores, quem as planta, e quem guarda o montado nas longas décadas em que ele não rende nada?

O que o montado dá primeiro não é cortiça, é mel. As abelhas desempenham um papel vital no ecossistema do montado em Portugal, garantindo a polinização de várias plantas e a sustentabilidade da biodiversidade local, enquanto a apicultura aproveita a flora rica de sobreiros e azinheiras para produzir mel de qualidade única

Na nossa analogia, o mel não são foguetões nem patentes. É uma coisa mais antiga e mais difícil de nomear, a que os economistas chamam capital social, ou confiança generalizada.

O mel é a doçura entre estranhos. A promessa cumprida. O favor retribuído. A apresentação feita a quem não tem como pagá-la. O negócio fechado num aperto de mão, porque ambos sabem que o outro vai aparecer.

As sociedades com muito mel conseguem fazer uma coisa notável: construir organizações grandes com pessoas que não são parentes umas das outras. As que têm pouco não conseguem, e tudo se fica pela orla da família, para lá da qual o mundo se presume hostil e toda a instituição se presume viciada.

E a palavra não é capricho nosso. Nenhum ministério instala mel. Não se importa nem se compra. Faz-se ao longo de gerações, no uso, por todos e por ninguém em particular, e gasta-se numa só. O que se pode fazer é tratar das condições, que é precisamente o que se faz a um montado: preparar o solo, proteger o que é novo, e tirar menos do que a paisagem precisa para se refazer.

Aqui está a ligação que decide tudo, e vale a pena lê-la devagar, porque é a razão pela qual os grandes projetos nacionais quase sempre falham aqui.

Um moonshot é o projeto mais intensivo em mel que uma sociedade pode tentar.

Vejam o que ele exige, na prática. Milhares de estranhos, em instituições diferentes, sem contrato nenhum a uni-los, têm de investir as suas carreiras num retorno que só chega depois de o governo mudar e de alguns deles já terem morrido. Uma física entrega o resultado a um engenheiro que nunca vai conhecer. Um fornecedor produz para uma norma que ninguém vai inspecionar durante uma década. Uma........

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