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Crença e Fé: o exemplo de S. Francisco de Assis

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14.04.2026

Com frequência, a vida apresenta-se como  um amontoado de questionamentos, de dúvidas, de insatisfações, de procura  por algo que faça sentido: o sentido da própria existência , podendo vislumbrar-se  naquilo que se faz diariamente, naquilo que se vive e nas atitudes que se toma perante as circunstâncias da vida.

O Homem considera que tudo tem um sentido, uma razão de ser, sente  a necessidade de uma justificação para a  sua ação. Os motivos podem ser utilitários ou  mais fundamentais, que expliquem  a própria existência e permitam aceitar alguns aspetos da vida.

Crenças e opiniões moldam o agir humano e, consequentemente, produzem transformações individuais e coletivas, influenciando os contextos socioculturais. As crenças constituem, em grande medida, um conjunto de dogmas externos, não comprovados pela experiência direta do indivíduo ou da coletividade. Estruturam sistemas de valores baseados em consensos maioritários, influenciando decisivamente comportamentos e condutas, ao determinarem a forma como as pessoas se relacionam e interpretam as situações em que interagem.

A crença é, frequentemente, confortadora: oferece segurança, reduz a dúvida e atua como elemento apaziguador e agregador. O crente tende a agir segundo o que julga necessário, encontrando reforço na comunidade daqueles que pensam de modo semelhante. Contudo, tal dinâmica pode conduzir a uma uniformização que dificulta a aceitação da diversidade, cristalizando-se em ritos e ortodoxias que promovem a aglutinação coletiva

A crença só se torna conhecimento quando é verificada por meio da observação e da experiência, ou seja, por um método científico. Então, pela razão, a crença  transforma-se em conhecimento, que permanecerá válido enquanto não surja algo que o negue.

De modo diferente, a fé  coloca  continuamente questões: “Quem é este, que até mesmo o vento e o mar obedecem?” [Mc 4,41]. Uma pergunta da fé, que continuamente necessita de apoio, será; “Eu creio; ajuda-me na minha incredulidade” [Mc 9,24] , o que bem resume  o que é a fé. Nestas palavras se condensa a natureza da fé: uma abertura permanente, que procura e se reconhece incompleta.

Para a crença tudo é mais simples: Deus é Todo-Poderoso, e sentimo-nos seguros perante o seu poder. De modo diverso, a fé é inquieta e interrogativa, é sempre uma questão pessoal, ao colocar  Deus a singularizar a pessoa :“eu te chamo pelo teu nome” [Is 45, 4]. Colhe sinais  e só  ela, a fé,   permite  apreciar, num relacionamento singular com um Deus único e que se revela como uma pessoa,  a Sua verdadeira  imensidão, a Sua  verdadeira natureza. A fé não apoia meias-verdades e meias-certezas. Obriga  a considerar que, facto,  nada somos  e, ao reconhecê-lo,  talvez se receba tudo como  presente.

S. Francisco de Assis considerava  que, para se aproximar de Deus (o “Tudo”), o homem precisava de se esvaziar de si mesmo, o que  designava  de sine proprio (viver sem nada de próprio) . Ao reconhecer que “não é nada”, o ser humano abandona a pretensão de controlo e o orgulho, eliminando as barreiras que impedem a entrada da graça divina.

A fé não aceita ambiguidades. Ao considerarmos que somos algo por mérito próprio,  então o que recebemos  de Deus será  um “pagamento”. Se, porém,  aceitarmos  que “nada” somos, tudo o que nos rodeia — o sol, a comida, os irmãos e a própria vida — torna-se presente, dom. A menoridade é, pois ,  condição necessária para a gratidão absoluta. S. Francisco considerava que  a razão máxima para ser menor era a Kénosis (o esvaziamento de Cristo) : o próprio Deus  fez-se  “menor” ao encarnar e morrer na cruz, pelo que ser menor era, para ele, a forma mais direta  de seguir os passos de Jesus, sem as distrações da importância pessoal ou da segurança material.

Ser “menor” , para Francisco, traduzia o modo correto para alcançar uma  fé íntegra. Sem  nada para perder, ele tornava-se livre para possuir a alegria plena. Não um sentimento passageiro de euforia ou satisfação pessoal mas uma vitória espiritual sobre o ego, alcançada mediante o  amor incondicional a Cristo,  mesmo em  situações de sofrimento e rejeição, Logo  não dependendo do reconhecimento, do conforto ou do sucesso para estar em paz com Deus.

Podemos encarar o “Cântico das Criaturas” (ou “Cântico do Irmão Sol”) como  expressão máxima da Verdadeira Alegria, porque foi composto num momento de dor extrema e, ao  tratar  todos como Irmãos Francisco retira-se do centro do universo. Ele não vê a natureza como algo a ser dominado ou possuído, mas como parte de uma família e a  alegria reside em sentir-se uma pequena peça de um coro imenso que louva o Criador.

Francisco elogia as criaturas pelas suas qualidades de serviço, que espelham a sua própria busca pela “menoridade”. Por exemplo ,a  Irmã Água é louvada por ser “muito útil, humilde, preciosa e casta” e, perto do fim, Francisco introduz um elemento humano fundamental: “Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam pelo teu amor, e suportam enfermidades e tribulações”. Aqui, a Verdadeira Alegria aparece explicitamente: ele abençoa a dor. Para Francisco, a paz não é a ausência de problemas, mas a capacidade de os encarar com amor. Ele une o sofrimento físico à harmonia cósmica.

O ponto mais radical do Cântico é, todavia, o louvor da  Irmã Morte corporal, pois, para quem se considera “nada” (menoridade), a morte será a abertura da porta para o “Tudo” (Deus).

A visão de São Francisco antecipa o que o  Papa Francisco designou por  ecologia integral (Encíclica Laudato Si’): a ideia de que não podemos cuidar da natureza se o nosso coração estiver desconectado dos outros seres humanos. S. Francisco de Assis, ao ser “menor”, colocava-se ao lado dos “descartados” da sua época (os leprosos). Hoje, a verdadeira alegria franciscana deve refletir-se na luta contra a exclusão social. Não há ecologia real se ignorarmos a pobreza. Cuidar do planeta e cuidar do próximo são a mesma missão.

No entanto,  atualmente,  a felicidade  é a acumulação, o valor de um ser humano ou de uma floresta é medido pela sua capacidade de gerar lucro. Quando o homem vira “carne para canhão” (nas guerras ou na exploração laboral) e a Terra não é mais que  “recurso”, perde-se a capacidade de receber o mundo como presente,  passando  a vê-lo como propriedade. A “menoridade” de Francisco é “substituída” pelo  seu oposto absoluto: a idolatria da utilidade.

Tudo se compra. Francisco prova que o  essencial (a luz do sol, o ar, a fraternidade, a paz) é radicalmente gratuito.  Para Francisco, a fé só é plena quando deixamos de tentar “possuir” a verdade ou as coisas, e passamos a “habitar” a realidade com humildade. Essa passagem do “eu” para o “nós” (fraternidade) e do “ter” para o “ser” (menoridade) é o que transforma a crença numa fé viva.

O Parque Franciscano Laudato Si (Convento Franciscano da Luz, em Lisboa)  pretende despertar em cada Visitante uma profunda ligação ao cuidado da Criação, sentindo que existir é ser hóspede da divina Providência e da amizade dos homens irmanados em fraternidade. Um lugar de descanso, oração e diálogo, onde se respira o oxigénio da fraternidade e da inclusão, onde se torna bem vivo o sentimento de que ter uma vida plena, exige, necessariamente, uma vocação humana, orientada por um amor confiante a Deus e um irrecusável amor aos outros

No bulício urbano permite vislumbrar  a Criação não sequestrada, não espartilhada, revivendo a Encíclica Laudato Si’ mediante sete  painéis que focam as. partes consideradas fundamentais desta Encíclica.

A Criação revela-se, assim, como dom divino. Vale a pena visitar o Parque Laudato Si’ — não apenas para o ver com os olhos, mas sobretudo para o contemplar com o coração, como convém às coisas de Deus, das quais tanto e tão continuamente parecemos afastar-nos.

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