Subir para uma mota tem algo de medieval
Há gestos que sobrevivem às épocas, às revoluções tecnológicas e às mudanças da própria civilização. Enquanto historiador, habituei-me a procurar continuidades onde a maioria apenas identifica rupturas. Talvez seja por isso que nunca consegui olhar para uma mota apenas como um meio de transporte. Sempre que passo a perna por cima dela tenho a estranha sensação de estar a repetir um gesto que acompanha a Humanidade há muitos séculos. Antes de existirem motores, homens e mulheres montavam cavalos para trabalhar, combater, transportar mensagens, partir em peregrinação ou simplesmente regressar a casa. Hoje fazemos praticamente o mesmo movimento. Mudaram os materiais, mudou a velocidade e mudou o combustível, mas o corpo continua a assumir quase a mesma postura de quem, durante centenas de anos, encontrou no cavalo a extensão natural da sua liberdade.
Subir para uma mota tem algo de medieval ou mesmo milenar… Não é apenas a posição do corpo, com um pé de cada lado da montada e os olhos sempre fixos no horizonte. É a forma como participamos na viagem. Tal como um cavaleiro não se limitava a sentar-se sobre o cavalo, também um motociclista não é um simples passageiro. O equilíbrio, a leitura constante do terreno, a antecipação dos obstáculos e a relação quase intuitiva entre homem e máquina criam uma ligação que nenhum automóvel consegue oferecer. O........
