A democracia protege-nos da incompetência?
Nos dois artigos anteriores procurei discutir duas perguntas fundamentais.
Primeiro: de que falamos quando dizemos democracia?
Depois: quem deve decidir quem governa?
Resta agora uma terceira questão, talvez a mais incómoda de todas.
Será que a democracia nos protege da incompetência?
A resposta intuitiva parece ser afirmativa. Afinal, se os governantes forem incompetentes, os cidadãos podem substituí-los nas eleições seguintes.
A democracia conteria assim um mecanismo de autocorreção.
Mas será que é realmente assim?
A teoria económica, a ciência política, a psicologia cognitiva e a biologia evolutiva sugerem uma resposta bem mais complexa.
O problema não reside apenas na competência dos governantes. Reside também na arquitetura de incentivos em que todos participam: eleitores, partidos, comunicação social e redes sociais.
Mas comecemos pelos eleitores.
A maioria das pessoas não dispõe de tempo para estudar profundamente economia, finanças públicas, política internacional, sistemas eleitorais ou direito constitucional.
De resto, nem seria razoável esperar que o fizessem.
Cada cidadão tem família, profissão, problemas pessoais e interesses próprios.
Além disso, como vimos no artigo anterior, existe aquilo que Anthony Downs designou por “ignorância racional”.
Dito de outra forma, como a probabilidade de um único voto alterar o resultado de uma eleição é praticamente nula, o benefício esperado de investir muitas horas a estudar política também é reduzido. Perante este cenário, o cérebro faz aquilo que evoluiu para fazer. Recorre a atalhos. Na psicologia cognitiva chamamos-lhes heurísticas.
Em vez de analisar exaustivamente........
