Gaslighting
Sou a primeira a reconhecer o excesso de anglicismos no nosso espaço público. Mas temos de lhe dar algum crédito: a língua inglesa, sobretudo no contexto norte-americano, revela uma enorme versatilidade e enriquece, muitas vezes, a interpretação do mundo com palavras novas.
Consideremos o caso de “gaslighting”. A palavra inspira-se na peça Gas Light do britânico Patrick Hamilton, adaptada ao cinema em 1944 e que conta a história de um marido que manipula lentamente a mulher até ela enlouquecer. O título remete para a iluminação (a gás) da casa: embora as luzes estejam gradualmente a apagar-se, o marido insiste com a mulher de que estão ligadas ao ponto de ela deixar de confiar no que está a ver.
De acordo com o Merriam-Webster Dictionary, o termo passou a ser usado, na segunda metade do século XX, para referir
“a manipulação psicológica de uma pessoa, geralmente ao longo de um período prolongado, que leva a vítima a questionar a validade dos seus próprios pensamentos, da sua perceção da realidade ou das suas memórias e que, normalmente, resulta em confusão, perda de confiança e de autoestima, incerteza quanto à sua estabilidade emocional ou mental e dependência do agressor”.
Foi especialmente aplicado em contextos terapêuticos, sobretudo dentro daquela dinâmica feminista de culpar os homens por todos os problemas da relação, mas ganhou, na última década, um sentido gradualmente mais político para situações de ambiguidade informativa, desinformação, fake news ou deepfake. E acabou por se popularizar com o sentido mais lato de “ato ou prática de induzir alguém em erro de forma flagrante, especialmente para obter vantagem........
