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A lição de Ifigénia

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27.01.2026

O regresso a Ítaca consagrou Ulisses como lenda imortal, por quem a cultura ocidental sempre se enamorou. Mas o fim da guerra de Troia determinou outros regressos e nem todos foram bem-sucedidos. Pensemos em Agamémnon, a carregar os seus barcos com os despojos da cidade destruída e levando consigo Cassandra, uma dos muitos filhos de Príamo e Hécuba. Cassandra era profetisa de Apolo, embora tenha sido castigada por este ao recusar o seu amor: teria o dom da predição, mas estava condenada a que ninguém acreditasse nas suas profecias. Por isso, quando avisou Agamémnon de que os dois morreriam à chegada a Micenas, Agamémnon ignorou o aviso.

É possível escrever todo o ano sobre a maldição da casa de Atreu a que Agamémnon pertencia (e revisitaremos em breve Orestes, cuja história marca o início da civilização ocidental), mas a figura mais trágica é provavelmente a do próprio Agamémnon, que detinha uma espécie de poder imperial sobre os territórios vizinhos ao ponto de Homero falar dele como “o soberano dos homens” (na tradução de Frederico Lourenço). É ele que abre a Ilíada discutindo, com raiva a cólera de Aquiles, sobre Criseida e a peste com que Apolo castigava os gregos:

“Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida
(mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus
e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades,
ficando seus corpos como presa para cães e aves
de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus),
desde o momento em que primeiro se desentenderam
o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.”

Na Odisseia, ficamos a saber que os barcos de Agamémnon resistiram à tempestade com que os deuses castigaram os gregos e alcançaram Micenas rapidamente. À chegada, Clitemnestra recebe o marido com honras de rei e herói e prepara-lhe um banho: é aí assassinado pela........

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