menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Lobo Antunes foi meu professor de português

24 0
06.03.2026

O primeiro texto que li de António Lobo Antunes terá sido uma crónica nas aulas inaugurais do secundário. Chamava-se “Chopin é um frango”. Na verdade, li-o ainda nas férias, num apartamento grande, ainda em luto pela morte do meu bisavô, quando abri os livros novos, que tinham chegado mais cedo nesse ano. De lá para cá, aquela sensação de ser enganado por um autor, de ele nos perseguir, de, por fim, nos ludibriar, de isso ser imensamente mais prazeroso e bondoso que a evidência, continua a raptar parte da minha imaginação.     Durante os anos que se seguiram, nas imensas tardes livres daqueles três anos, ou nas fugas propositadas às fichas de matemática e aos exercícios de físico-química, que não escolhi voluntariamente, António Lobo Antunes foi a pessoa com quem podia falar de literatura. Fosse, de novo, nas crónicas, nos romances, ou nas entrevistas.

No meio de leituras redondamente moralistas de textos durante as aulas, depois da insipidez das “explicações” das obras obrigatórias, depois de Camões ser esquartejado para servir de alimento às pequenas bocas famintas de análise e classificação de orações, depois de tudo isso, Lobo Antunes mostrava-me que a literatura podia ser outra coisa. O seu efeito só era, então, comparável ao de quando, numa aula do 9.º ano, uma professora veio à aula de ciências apresentar o livro da sua vida e se comoveu tanto a falar de As Velas Ardem até ao Fim, que teve de sair antes do planeado. Quer num, quer noutro caso, nunca imaginei que um livro não servisse para manter a compostura.

Odiei – secretamente ainda odeio – todos os livros que os meus professores recomendavam nas aulas, nomeadamente aqueles que se podem catalogar sob o epíteto “livros para quem não gosta de ler, mas que tem de ler alguma coisa ou porque faz bem, ou porque é preciso fazer uma apresentação oral no final do período”. Mas comovia-me sempre que António Lobo Antunes falava de um novo autor e eu o lia: Faulkner, Borges, Carver, Céline, Proust, Montaigne, Conrad. E, tal como nessa altura, ainda hoje não me interessa se os entendo. A literatura não serve para isso.

Nele, tudo parecia tão diferente das aulas de português. Quando lia a sua voz interludial, desequilibrada, empalada, sangrada, abria, através dela, mais mundo, mais feridas e mais insónias, do que lendo as habituais convenções de boas maneiras e bom gosto. Quando o ouvia dizer que só vale a pena escrever se for para mudar a história da literatura, sentia que recebia algo que os pedidos de textos expositivo-argumentativos no final dos testes não podiam satisfazer. Quando ouvia repetidamente a sua conversa com George Steiner, frequentava, finalmente, a escola que eu queria. No fim de contas, tudo parecia falar de um Deus que não era o Deus do dono da casa. A mim, no entanto, que tinha passado os verões com pessoas nascidas no início da Primeira Guerra Mundial, que tinham tido como brinquedo de infância um primeiro volume do Dom Quixote, tudo era luminoso.

Ontem, depois da notícia da sua morte, reli uma frase sua: “Eu não quero nem que me compreendam, nem que me discutam, quero que apanhem os livros como quem apanha uma febre.” Devemos fazer-lhe a vontade. Mas sem tomar paracetamol.

Receba um alerta sempre que P. João Basto publique um novo artigo.


© Observador