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Escândalos Reais

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28.02.2026

Segundo notícias recentes, Jeffrey Epstein foi amigo de dois membros de famílias reais europeias: um irmão do Rei Carlos III da Grã-Bretanha e a mulher do príncipe herdeiro da Noruega.

Como é sabido, o que antes fôra, de facto e de iure, Sua Alteza Real o Príncipe André, Duque de York, e agora é simplesmente o cidadão André Mountbatten-Windsor, apelidos que lhe foram dados em substituição dos títulos que foi impedido de usar, mas que ainda não lhe foram formalmente retirados, foi detido pela polícia britânica para prestar declarações sobre um alegado crime de conduta imprópria no exercício de funções oficiais. Não é o primeiro escândalo que afecta a família real britânica – recordem-se os casos do Duque de Windsor, de Diana, de Harry, etc. –, mas é inédito que um irmão do monarca seja publicamente detido por suspeita de um crime que pode acarretar uma pena de prisão efectiva. É verdade que André, o terceiro filho da Rainha Isabel II e do Príncipe Filipe, foi sempre o “enfant terrible” da Casa Real britânica e que, por ser o filho preferido da anterior soberana, as suas irreverências foram sempre desculpadas, na frustrada expectativa de que, com a idade, adquirisse uma postura mais de acordo com a sua condição e com as responsabilidades inerentes.

Infelizmente, também no âmbito da sua vida privada, o terceiro filho de Isabel II não foi exemplar. Não só o seu casamento resultou em divórcio – como os primeiros casamentos dos seus irmãos Carlos e Ana – como desde então a sua vida sentimental, como aliás a da ex-Duquesa de York, não tem sido a que seria de esperar. Excepção à regra é o bom comportamento das duas filhas havidas deste casamento, o que explica que tenham mantido o seu estatuto na família real inglesa.

Se essa fosse a única culpa de André, talvez não se justificasse que lhe fossem retiradas todas as suas honras militares e civis. Infelizmente, o seu caso ganhou uma nova e preocupante gravidade quando se conheceu a sua estreita amizade com Jeffrey Epstein, um norte-americano “podre de rico”, como muito acertadamente o descreve um documentário sobre a sua imensa podridão moral e riqueza material. Epstein era um predador sexual e um descarado pedófilo e, por estes seus horríveis crimes, foi encarcerado, tendo falecido na prisão. André não podia ignorar estes comportamentos infames, pois pernoitou várias vezes na casa de Epstein, onde participou nas festas por ele organizadas, com a participação de raparigas menores de idade, de que eventualmente teria abusado. Ora, uma tal relação não é amizade, mas cumplicidade, e a conivência com o crime é um delito que, quem quer que seja o autor, não pode ficar impune.

O outro caso é o de Mette-Marit, Princesa da Noruega pelo seu casamento com o próximo monarca desse país escandinavo. Quando se casou com o herdeiro do trono da Noruega, Mette-Marit já tinha um filho, Marius Hoiby Borg, ou Borg Hoiby, que, naturalmente, continuou a viver com a sua mãe, bem como com o seu padrasto, o Príncipe Haakon, a que depois se juntaram os seus meios-irmãos – os príncipes Ingrid e Sverre Magnus – que, ao contrário dele, pertencem à família real.

Marius está detido e a ser julgado por 38 alegados crimes, entre os quais 4 violações, violência física, assaltos, posse e transporte de drogas, etc. Assim sendo, pode ser condenado a uma pesada pena de prisão. Portanto, a Noruega está na iminência de ter a mãe de um criminoso como sua princesa herdeira e, até, sua próxima rainha!

Mette-Marit não é, decerto, responsável pelos actos desse seu filho, já maior, mas sim da sua amizade com Jeffrey Epstein. Conheceram-se em 2011 e, desde então, trocaram mensagens íntimas, em que ela o trata por “querido” e ele a considera “perversa”, por não ter os comportamentos próprios dos membros da realeza…

Não obstante este escândalo, o parlamento norueguês reafirmou, por expressiva maioria, a vontade popular de manter o regime monárquico. Mas, uma tal decisão será suficiente se se confirmar a tóxica, para não dizer indecente, relação com Epstein? Sobreviverá a uma pesada condenação de Marius? A maioria dos noruegueses, embora partidários da monarquia, não quer que a actual princesa venha a ser a sua rainha.

Costuma-se dizer que à mulher de César não lhe basta ser séria, deve também parecê-lo. Quando Napoleão III quis casar e cortejou uma dama que, para o agradar, lhe concedeu levianas facilidades, o soberano viu-se obrigado a descartá-la, pois não tinha a estatura moral própria de uma imperatriz. Quando fez análogos avanços junto de Eugénia de Montijo, perguntando-lhe atrevidamente qual era o melhor trajecto para os seus aposentos, a fidalga espanhola, por certo com antepassados portugueses, fez-lhe saber, com grande dignidade, que esse caminho passava pela capela, ou seja, só lá acederia sendo seu marido. Casaram e o seu único filho morreu, solteiro, na guerra dos boers, na África do Sul, como também morrera sem geração o único filho varão do primeiro Napoleão, chamado Napoleão II, que recebeu de seu pai o título simbólico de Rei de Roma, mas que, de facto, nunca reinou.

A legitimidade das monarquias é histórica e ética: a primeira resulta da identificação da família real com a história nacional; e a segunda decorre da sua exemplaridade moral. As famílias reais podem-se modernizar, mas não vulgarizar, nem macular a dignidade real, em cujo caso a sua preeminência não teria razão de ser. Por isso, as suas alianças matrimoniais devem corresponder a esse elevado nível de exigência social e moral: não era por acaso que, até meados do século passado, os príncipes das casas reais casavam com pessoas do mesmo meio, ou então renunciavam a essa condição. Os privilégios dos membros das famílias reais decorrem da sua maior obrigação de serviço: quem não quiser, ou puder assumir tais compromissos, deve ser dispensado das inerentes honras. Se, como dizem os franceses, “noblesse oblige”, muito mais obriga a realeza: quem não quiser o jugo dessa exemplaridade e serviço à nação também não tem direito às inerentes honras.

O que aconteceu com alguns membros de famílias reais verifica-se também, até em maior escala, na classe política, como se prova pela recente detenção de Peter Mandelson, ex-ministro do Trabalho e embaixador britânico, ou a demissão de Borge Brende, ex-ministro norueguês dos Negócios Estrangeiros e presidente do Fórum Económico Mundial (WEF). O escândalo Epstein expressa a podridão de algumas elites: esta crise mundial é, sobretudo, uma crise moral.

Receba um alerta sempre que P. Gonçalo Portocarrero de Almada publique um novo artigo.


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