O Brasil no limite da política (II)
Economia: pode o Brasil “tornar-se quem é”?
Há mais de uma década, uma jornalista alemã questionou o Ministro da Defesa do Governo Dilma Rousseff, Aldo Rebelo, sobre a existência de metais raros em solo brasileiro – e quais? Conta-se que o ministro respondeu assim: “Conhece a tabela periódica? Temos tudo.” Porque é que um país com território, recursos, universidades, empresas, mercado interno e ambições internacionais, tem tanta dificuldade em transformar potencial material em poder económico?
Terras raras, em bom rigor, não são exatamente terras. São um grupo de 17 elementos químicos metálicos: os 15 lantanídeos, mais o escândio e o ítrio. Também não são as mais raras da crosta terrestre – o ouro e a prata, respectivamente, o elemento número 79 e o 47 da tabela periódica, são muito menos abundantes – porém, são estas as matérias-primas que permitem produzir os ímanes permanentes mais potentes da indústria. Vejamos para que servem os ímanes. Num carro elétrico, por exemplo, a bateria de lítio armazena a energia; no motor, os ímanes permanentes criam um campo magnético que transforma essa energia elétrica em movimento. O mesmo princípio está presente em drones, aeronaves, equipamentos industriais, turbinas eólicas e outros sistemas tecnológicos. Pode-me ter escapado alguma coisa nesta explicação físico-química que confesso não ser o meu forte – passemos à geopolítica.
Como bem explicou Bruno Cardoso Reis num artigo de Outubro de 2025, no Observador, “para perceber a atual distribuição de poder entre as grandes potências, é mais importante olhar para a disputa em torno das terras raras do que para os conflitos armados que ensanguentam o mundo”. Segundo os dados mais recentes da United States Geological Survey (USGS), cerca de 25% das reservas mundiais de terras raras encontram-se em território brasileiro, somente atrás da China, que possui 50%. Por sua vez, os EUA detêm apenas 2%. Retenha os dados destes dois países, caro leitor, voltaremos a eles mais tarde para compreender a encruzilhada em que o Brasil se encontra.
Possuir terras raras debaixo do solo é como ter um parque industrial sepultado. É preciso extrair o minério bruto, concentrar os metais raros, separar e refinar os elementos, transformá-los em materiais industriais, e só depois podemos cogitar o carro elétrico, o drone ou o servidor do centro de dados. A posse das terras raras confere poder geopolítico apenas como hipótese; a concretização desse poder só se realiza com o domínio das várias etapas da cadeia de produção. Este movimento implica a mobilização de geólogos, engenheiros químicos, e especialistas em várias áreas da indústria e da tecnologia, num esforço que tem de ser necessariamente coordenado entre a iniciativa privada e a ambição desenvolvimentista do Estado. A China, pródiga em articular o interesse privado com o interesse nacional, posicionou-se de tal maneira nesta corrida, que........
