O Berço do Racismo e dos Direitos Humanos
Dizer que os espanhóis “inventaram o racismo” é uma frase que provoca arrepios, mas que, num plano estritamente técnico e histórico, carrega uma verdade incómoda. É factualmente correto afirmar que foi na Península Ibérica, durante a transição turbulenta para a modernidade, que o preconceito deixou de ser apenas uma questão de fé para se tornar uma questão de biologia.
Os Estatutos de Limpieza de Sangre (Pureza de Sangue) foram o marco zero desta transformação. Pela primeira vez, codificou-se em lei que a dignidade de uma pessoa não dependia do seu batismo ou da sua crença, mas de uma “mancha” hereditária indelével. Espanha não inventou o ódio, esse é tão antigo quanto Caim, mas inventou o “software” administrativo que permitiu classificar seres humanos pela sua ascendência e cor da pele. Foi este expediente burocrático, nascido do medo e da necessidade de controlo social da Inquisição, que forneceu a arquitetura para a estratificação racial que viria a moldar as sociedades atlânticas e o colonialismo nos séculos........
