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Da família para o safe space

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09.04.2026

Em A Condição Humana, Hannah Arendt observa que a sociedade moderna dissolveu a separação entre o público e o privado que definia a família na sociedade clássica. Na Grécia antiga, o lar era acima de tudo um espaço privado. Dentro dela, os filhos deviam obediência aos pais que, em troca, lhes providenciavam educação, protecção e sustento, numa relação directa e soberana face ao colectivo. Essa reciprocidade assentava em amor, sangue, responsabilidade, respeito, orgulho e hierarquia, nunca em “direitos”, menos ainda em regulamentação tutelar por parte de um Estado central. A polis, pelo outro lado, configurava o espaço político onde os cidadãos elegíveis podiam participar no debate público, decidindo assuntos comuns, políticos, sociais e económicos, onde não se misturavam as miudezas da economia doméstica, naturalmente relegada para dentro das quatro paredes que compunham o mundo privado da família.

Essa fronteira público-privado era, naturalmente, essencial na formação dos indivíduos. Na medida em que os assuntos “domésticos” ficavam fora da política, bem como do “regulamento”, ou da “administração pública”, a sociedade clássica, uma sociedade, paradoxalmente, muito menos individualista do que a moderna, garantia efectiva separação entre o indivíduo — parido, nutrido, acarinhado, educado no recesso do seu lar — e o Estado. Arendt nota, com pertinência, que a modernidade inverteu o processo: ainda que em nome do interesse do indivíduo e dos seus “inalienáveis direitos”, a sociedade de massas acabou “socializando” em larga medida aquela componente outrora privada da sociedade.

Desde logo, o indivíduo sai a perder, e por uma razão simples: a família governa no concreto; o Estado, no geral e abstracto. Assim, onde a família, bem como a pequena comunidade, lida, trata, se relaciona com pessoas de carne e osso, ao Estado, gerindo todos, em massa, sobra apenas a abstracção do modelo teórico, do algoritmo, ou da tendência social. Como Aristóteles lembrava a propósito daquilo que é público, no estado moderno, o indivíduo, interessando abstractamente a todos, não interessa, de facto, a ninguém, transformando-se num número, uma insignificância estatística, um grão transportado numa imensa engrenagem.

Pior ainda, é que foi todo o mundo privado doméstico que se esvaiu para dentro da própria política. É por essa razão que no mundo moderno grande parte do debate público gira necessariamente em torno de questões outrora domésticas, pouco dignas de qualquer debate inflamado na ágora: imagine-se, por exemplo, Péricles declamando sobre qual a regulamentação adequada do teor de gordura no leite, ou sobre a quantidade de proteínas na carne, a quantidade de sal no pão — tudo temas que, por incrível que pareça, junto com vírgulas orçamentais, compõem hoje em dia as manchetes dos jornais que entretêm a população. Aliás, do mesmo modo doméstico, prático, se mede também a “felicidade” nacional através do número de televisores, ou Bimby, por habitante, número de automóveis por agregado familiar, computadores, telemóveis, etc., etc. — assim se decretando científica e estatisticamente sobre os sucessos, ou insucessos, de cada governação.

Em suma, no mundo moderno, o poder político, e não a sociedade através das suas instituições — família, comunidade, empresa, corporação —, é aquele que se preocupa “efectivamente com os reais problemas das populações”, tratando, acima de tudo, da “qualidade de vida” das pessoas, assim garantindo e certificando que estão todos em segurança, entre outras, alimentar. Todos, atente-se, e por igual — assim funciona a sociedade de massas no conforto do geral e abstracto.

Consequentemente, porque o poder não pode propriamente cair na........

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