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Cenas da vida política portuguesa

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12.03.2026

À falta de melhor novela, o país entretém-se com a política. Por estes dias, a questão divide-se em dois temas: as “declarações” de Passos Coelho e a tomada de posse de Seguro. Pelo meio, as “reacções” — aquilo que faz o jornalista soltar frémitos de pequena excitação é sempre a “reacção”, pede-se a “reacção”, pergunta-se ao colega se já tem a “reacção”, faz-se o directo para obter a “reacção” — às ditas declarações, bem como à celebrada tomada de posse. É, explicam-nos, a “festa da democracia”.

1 Comecemos pelo fim. Seguro, o anti-Marcelo, vispou-se para o lugar que agora ocupa graças à promessa de ser o oposto do seu antecessor. Assim, onde o outro, o que em hora demasiado tardia ora se foi, passou o tempo a correr, saltar, gritar, dançar, espernear, já este, o que vem, promete serena tranquilidade, assim jorrando relaxe no seu discurso de lançamento, em monótona cadência, para entorpecimento generalizado da audiência e adormecimento da população, enquanto cospe o maior acervo alguma vez escutado de banalidades políticas.

Partindo da garantia de “estabilidade”, da promessa de que “vale a pena acreditar”, da enumeração dos problemas de sempre, aqueles com os quais todos se indignam quando eleitos e se esquecem quando condecorados, como bom socialista, Seguro lá bateu as capelinhas do costume, lembrando a “pobreza sistémica”, a “falta de produtividade”, a “desigualdade”, a “morosidade da justiça”, os “baixos salários”, o “envelhecimento demográfico”, a “insegurança”, a “falta de acesso”, no caso à “saúde”, à “educação” e à “habitação”, bem como a “desconfiança nos políticos” — ora, pudera, estranho seria se o povoléu continuasse a comprar discurso velho e batido com esperança de que alguma coisa mudasse.

Ainda assim, após a dose de cafeína regada a metanfetaminas e Fortimel com que nos engasgámos nos passados dez anos, o tom monocórdico, insípido, embalador de Seguro foi quase reconfortante. Quase, porque, claro está, depois dos problemas, seguiram-se as soluções com que prometeu devolver, imagine-se, “a esperança aos portugueses”. A contrastar com a seriedade compungida do novel presidente, só mesmo o facto de também estas não passarem de bem-estudados clichés habituais nestas ocorrências políticas: vai daí e lá veio a necessidade da “estabilidade”, da “previsibilidade” das medidas políticas, do “reformismo”, da “capacidade de diálogo”, da preocupação do “longo prazo” ao invés do “interesse partidário” imediato, etc., etc., etc…

No final, tudo junto, foi a lengalenga do costume, incluindo o pernicioso hábito de condecorar o presidente anterior, neste caso desvalorizando a condecoração ao nível de uma lata velha de Coca-Cola. Sobre Marcelo, o condecorado, o principal elogio foi o do “amor” deste a Portugal, a historieta ridícula dos “afectos”, bem como o........

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