Nós aqui temos procedimentos
Há uns sete ou oito anos, quando já levava praticamente uma década de exercício de advocacia no meu sistema pessoal de saúde, ensaiei uma pequena discussão com uma funcionária da Autoridade Tributária. Foi, de resto, um hábito que até hoje não perdi, esta coisa estúpida de, cada vez que me dirijo a uma repartição pública, ir desde logo preparado para a possibilidade de ter de discutir, quando antevejo intransigência, ou de me espremer em cordialidades, quando consigo adivinhar alguma abertura, por entre enfados e suspiros prolongados. Naquela manhã, para tratar de algo relativamente simples, e tendo eu proposto fazer algo que, de acordo com a lei, me era permitido, a funcionária recusou a solicitação e exigiu-me, enfim, aquilo a que vulgarmente se pode designar por “mais papelada”. Ensaiei a discussão, tentando explicar-lhe que eu podia fazer o que pretendia. Do lado de lá do balcão, surgiu aquele famoso desdém de quem, não tendo o sistema em baixo, não aparenta ter grande vontade em resolver problemas, antes em criá-los: quem é que lhe disse que podia fazer isso?, perguntou; a lei, respondi-lhe eu. E a senhora matou a conversa definitivamente: isso é o que diz a lei, mas nós aqui temos procedimentos.
Tempos depois, ali me dirigi novamente, a propósito de um outro tema, para pagar uma pequena fortuna em impostos, representando um cliente. O desgraçado do homem, sendo estrangeiro, tinha-me dado para as mãos um cheque que o banco tinha emitido com os valores por extenso em inglês. A repartição recusou o cheque: é que o valor em........
